Ciclos


Durante muitos, muitos anos, internamente desejei ter clareza.

Parecia-me uma jornada nobre, ascendente, de evolução do meu ser.

A cada virada de ciclo, reforçava os meus votos para alcançar mais discernimento em meus pensamentos, nas minhas escolhas – sobre a direção, horizontes ou convicções.

Vejo que esta busca jogou-me em profundos confrontos nos campos da essência, onde muitos silêncios se apresentaram incontornáveis.

Almejar um patamar ideal de clareza exigiu-me um processo exaustivo de constante racionalização das coisas e do exercício de consciência sobre tudo.

Tudo. O tempo todo.

Fatos, sentimentos, percepções. Pessoas, memórias, escolhas. Nada escapava da esteira da razão e da elaboração de significado. Uma produção de multiplicidades infinitas do pensar, do refletir, e observar.

_

Sete anos de muitos silêncios.

Pergunto:
seria a busca por clareza mais uma ilusão de controle?

Eu não sei.
Talvez o excesso de mente ora externalize incertezas.
mas eu não sei.

_

Para novos ciclos, talvez deseje ter coragem.

Coragem para agir sem sequer saber o resto desta sentença; para confiar, apesar do não saber.

Coragem para aceitar a impermanência que há em tudo o que é vivo. E, gradativamente, abrandar este impulso artificial de dominação sobre a vida.

(Já pensou sobre isso?)

Ter coragem para aprender – e inclusive a permitir – um viver mais leve, liberto da insustentável procura por amparo em rastros de certezas.

(Será que é possível?)

Coragem para reconhecer que há, nesta natureza que nos rege, um pulsante fluxo de vida – que vai além da ambição da minha compreensão, muito menos controle.

Para então,
em conformidade, seguir..
– encorajado
ainda que
incerto de clareza.

(Marcelo Penteado)

Arte


2015, Rio de Janeiro

2015, Rio de Janeiro

           

Um quinto a menos. Assim, devido a simetria numérica do equilíbrio que dança. O uísque ao gelo, a orquestra ao fundo. A canção plena, os sentidos vagos. O significado sensorial, perdido no ar.

O tempo segue, independente aos lapsos. Um passo amargo, uma memória mal tragada. Cá uma tosse. Vasta manifestação do desconforto – agudo, implícito, sentido, chorado.

Outro parágrafo. Outro momento. As cortinas abrem e a luz assusta. O incômodo recepciona, até a música reagir. Urgir. Pelo toque ao novo palco. O respiro, pois, entorpecente. Os músculos, a alma. À vontade em estar.

Mais baixo, logo enquadra-se o cenário. Pela regência, que, agora. A precisão do instante desconhece o atraso. Desnuda ao acaso. Lapida-se enquanto dilacera-se, inata ao pulsar mais vivo.

Decorre-se o que se vive. Enquanto vive, enquanto vida. O eclipse entre o sentimento e a sensação. A emoção desguarnecida, por natura, plena.

Vazia ao ensaio.

Um instante de esplendor – que somente a imprudente latência das palmas confunde ao abafar.

(Marcelo Penteado)

O lado do não


2015, Friburgo - RJ

2015, Friburgo – RJ

 

Talvez fosse por outro lado.

De repente, a mais concreta das realidades parece carecer de seu sentido. O dominó da insegurança deflagra seu efeito inerte à própria sorte.

Das mãos aos prantos – eis o detalhe escancarado da incerteza: a ingrata sensação que fere as bases de qualquer escolha, condenada pelo crescimento silencioso do que existe somente na possibilidade.

Basta um sim para o resto não.

Desmorona-se, frágil, o horizonte dos caminhos não percorridos. A projeção que esperava ser memória, enquanto refém além da própria inexistência.

O que é real entre a estrada, a direção ou a dúvida?

Nada, senão a certeza que antecede a decisão. O respiro mais quente que de dentro redireciona todos os sentidos. Um movimento empurrado pela própria natureza. Quando a mente titubea e o coração dispara, vem da alma a dissolução do alívio.

Há, então, um momento.

Quando o peito estufa a confiança em sua forma mais inflamável. Um espetáculo interno de clareza e convicção, ao passo que toda e qualquer dúvida contagia-se com um movimento irresistível de mudança.

Único, momento.

A brecha no sedutor balé das possibilidades. A percepção finalmente imune às ilusões de traiçoeiras realidades. A terna lembrança do momento vigente.

Escolher é assustadoramente libertador. Se por um lado aponta o futuro do presente, por outro silencia a existência de outros tantos infinitos.  

(Marcelo Penteado)

Caminho de volta


2015, Rio de Janeiro

2015, Rio de Janeiro

Ele pensou.

Subverteu o tédio dos longos minutos em um retorno para casa. Mas quem disse que a mente acompanhava-o?

Voava longe, deixando o corpo olhando para o nada. Olhando pra cima, com o pensamento cravado no ar.

Há muito já não via isso. Ao seu redor, absolutamente todos entretinham-se por menores janelas, em seus excessos de opções.

Já a dele, era da alma. Dava para ver. Admirável!

Reflexões verdadeiras de uma conversa com si mesmo. “Tanta coisa pra te falar…” suponho, “como anda você, rapaz?”.

Foi quando seus cabelos, já brancos de tantos tempo, pareceram brilhar ainda mais.

E, assim, seguiram. Apesar de todas as distrações e alterações de ambiente.

Imagino que não se viam há muito tempo.

(Marcelo Penteado)

Retrato de uma crônica recente


2015, Uruguai

2015, Uruguai

Conta a história que a felicidade concedeu um sopro, enquanto seguia perseguida pelos famintos desejos do mundo.

Disse ela, em tom de socorro, que não há resposta órfã de sinônimos.

Apelou!

Ora, quando ao deleite da existência traduziu-se vida, em outros tons igualmente se aprendeu a pluralizar quaisquer significado.

Porém, tão logo todos os olhos se cegam à felicidade, única e sublime, pobre dos sentimentos que também com ela percorrem os mesmos campos: suas trilhas desmerecem o desuso.

Carente o mais nobre dos atalhos: a curiosidade. O desejo intenso de experimentar a vida. A chama que se move não para cativar, senão o oposto. Incita quando até a coragem receia. A curiosidade é a releitura mais astuta da adrenalina que conecta o desejo à conquista.

(Talvez seja uma visão das mais privilegiadas ou um descompasso precioso, quando entre encantar-se ou alcançar, se manifestam descomplexamente, feito poemas de Manoel de Barros.).

Mais um respiro – Se no alcance da felicidade, justo ao ato de sua captura, poucas palavras escapulissem pelo seu ar de presa, ditos sem fio feito cânticos jurariam a validade do relato: “há mais ilusões que plenitude em mim; nua, sou a soma de muito que foi esquecido para injustamente polir-me só”.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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