Pensando alto – 20 e poucos anos


Mallorca, 2013

Enquanto isso, na cabeça de alguém:

“Verdade mesmo é que os 20 e poucos são anos pra lá de confusos. É um período meio azedo. É tipo Agosto: que não faz calor, que não chove, que não faz frio – faz tudo isso ao mesmo tempo. Para quem não anda muito seguro, bate até um friozinho na barriga. Mas daqueles de gente grande.

A paranoia começa quando você sabe que Fulano está prestes a casar. Marcou data e tudo. Já deixa de ir à praia para visitar buffets e salões de festa. O telefone só atende na segunda chamada. O cara nem ri mais de piadas idiotas!

E Sicrano, pior, vai ser pai. Já era. Engraçado como seu jeitão mudou, amadureceu na hora. Sua barba passou a fazer mais sentido e os planos mudaram de Vegas para Disney. Você fala “frango” e ele entende “fralda”. Menos um no futebol.

E aquele outro surtou. Na verdade, sempre foi meio pancada desde o colégio. Mas agora foi de vez. Mudou de penteado, país, religião – só falta mudar de cor. Bom, dele não duvido mais nada.

Aquela minha vizinha é outra. Fez duas tatuagens e começou a malhar. Deixou a timidez de lado e agora virou um mulherão. Quando mais nova usava um aparelho e ninguém lhe dava bola. Quero ver agora a cara dos marmanjos.

E Beltrano? Esse sim se deu bem. Virou artista conhecido e tá desfilando sucesso. O cara é bom mesmo, vai longe. Deixou crescer o cabelo e agora virou ícone social – vê se pode!

Mas outro dia mesmo me peguei foi pensando na irmã dele. Nossa! Aquela ali eu peguei no colo. Depois perdemos o contato e olha como ela está agora! Um espetáculo, que isso! Agora que o pai dela deve estar mais mal-encarado ainda.

Nossa, e o perninha lá do futebol? Joga muita bola, mas quer saber de nada. Aquele ali tá mais perdido do que nunca. Não estuda, não trabalha. Pior que o sacana tem um bom papo.

Soube ontem que aquele outro que não lembro nome tá arrebentando lá na firma. O cara já é gerente e tudo. Começou pequeno e foi crescendo. Comprou isso, comprou aquilo, não para de viajar. Tá com a vida encaminhada. Em cinco anos vai estar com cabelos brancos!

Descobri outro dia que minha ex casou. Não levei fé que o lance com aquele cara fosse durar. Sempre dava mole pra ela, mas casar é demais! Bom, deixa pra lá. Já passou mesmo.

Ainda bem que tenho minha namorada! A gente briga, mas gosto dela. Por enquanto não disse nada sobre casar! É, mas outro dia lembrei que ela falou em ter filhos. Ih, rapaz, seria isso um sinal? Ferrou. Mas se bem que ela anda meio confusa, estressada. De repente não é nada demais. Não, com ela sempre tem alguma coisa. É, ferrou mesmo.

Sair de casa deixou de ser uma obrigação. É um decreto! Do final do ano não passa, pode me cobrar. Eu sei que falei isso ano passado, mas agora é sério. Ano retrasado não conta, falei por falar.

E não é que lá em casa meus pais tão envelhecendo de verdade?! A terceira idade começa a trazer o charme que faltava para eles. Sorrisos cada vez mais inocentes e carregados de experiência. Tá bonito de se ver!

Mas da minha vida mesmo não sei dizer. Já não sou tão mais novo para errar alguns caminhos e também não sou tão velho ao ponto de fechar algumas portas. Sou o limite entre a minha realidade e meus sonhos.

Ciclos vão se fechando, responsabilidades se apresentam e algumas pressões começam a mostrar suas faces. Exames de rotina, calendário – acho até que vou comprar uma agenda, minha memória já não anda lá essas coisas.

Confesso que às vezes parece que volto a ser criança e sinto um medo de seguir em frente. A vontade é de esconder-me no edredom, mas a vida já me ensinou que isso não adianta tanto assim.

Pra você ver, outro dia me assustei durante um gole de cerveja. Foi com naturalidade que comecei a contar minhas histórias de moleque de cinco anos trás. Quando fiz as contas – engasguei – me dei conta que já tinha deixado de ser moleque há mais de dez. Mais do que nunca, as escolhas de cinco anos atrás regem cada vez mais minha vida.

E os raros encontros do nosso grupo de amigos? Reunir todo mundo é uma Odisséia. Sem agregados, impossível. Já nem sempre criamos novas histórias, mas passamos um bom tempo relembrando algumas de oito anos atrás.

Pensando bem, engraçado como cada um tomou seu caminho. Bom, na verdade alguns eram óbvios. Talvez por isso não confiar no meu me causa um tremendo desconforto. Mas tenho fé, vou encontrar o que eu quero para minha vida inteira. Aliás, estou trabalhando a espiritualidade agora. Cada vez mais isso me parece uma boa escolha!

Opa! Acabei de ser chamado para outra formatura. Meus primos vão se formar hoje e me deram o convite. Bom, melhor parar de filosofar um pouco e me preparar para a festa. Afinal, de toda esta confusão, posso garantir uma coisa – estes tais 20 e poucos anos não vão durar para sempre.”

(Marcelo Penteado)

Nublado


Berlin – Mallorca

Entre a perfeição e pontualidade da rotina alemã, navego. Serpenteando entre suas exatidões, represento uma união de incertezas alheio a qualquer garra que a rotina possa me apresentar.

Do sono que não me encontra ou dos costumes que não pratico, sou aquele estranho estrangeiro – ao mesmo tempo pra mim e para o resto.

Sou um olhar cego ao espelho. Despreparado, só vejo traços enquanto não entendo meus próprios reflexos.

Viajo, neste momento, no limite entre as nuvens e a luz – um infinito céu onde em ambos não há visibilidade.

Quanto mais me distancio de casa com mais intimidade minha natureza me fita. Um olhar poderoso e imponente. Tão belo e tão místico – amedrontador.

Ironicamente, em minha cruzada não encontro tesouros – nem em forma de perguntas, muito menos respostas.

Continuo minha jornada com a crença de uma revelação. Talvez daquelas das quais o maior vilão seja a maior verdade.

Uma perigosa inclinação espiritual. Talvez tenhamos crescido com ideias erradas sobre nossos próprios destinos.

Talvez tenhamos nos iludido com algumas aspirações.

Pode ser que, no que temos de mais profundo e ao mesmo tempo simples, tenhamos um latente desejo que nos move.

Talvez, no meio do caminho, canalizamos a força desse desejo em uma pulsante fixação sobre o universo do ‘ter’.

E a partir daí condicionamos toda nossa plenitude ao que é exterior, ao que nos faz, nos causa – ao que temos ou podemos ter.

Me soa sedutor, entretanto, a ideia de reler este desejo. Escutá-lo com mais atenção, fazê-lo expressar-se. Pois me há injetado calma a ideia de este desejo não desejar, essencialmente, ‘ter’.

Foi quando, em um alinhamento inexplicável, descobri que indagações podem ser mais verdadeiras que afirmações – e se o desejo mais profundo que existe em nós desejasse ‘ser’? A motivação em ‘ser’ é incondicional ao ‘ter’.

Isto é, o ‘ser’ é independente ao tempo, ao espaço e ao exterior. É a soberania do momento, é o melhor momento da presença no presente. É a autoafirmação em seu caráter mais pessoal.

Talvez seja o ponto zero, o estado mais elevado de todas nossas complexidades. Da alegria em si, da própria felicidade.

Quando somos, remanejamos os pertencimentos para uma segunda esfera. Não precisamos ‘ter’. Podemos ou não – somos verdadeiramente livres por e à qualquer definição.

Quando somos, escolhemos. Entendemos que somos a soma das consequências de nossas decisões. Entendemos que tudo o que temos é complementar às nossas escolhas e há variabilidade em tudo que está ao nosso alcance.

Quando queremos ser, temos uma motivação sublime e virtuosa para tudo que nos envolvemos. Temos a liberdade como horizonte e a responsabilidade como essência.

À esta altura, talvez saber não seja tudo. Quando sabedoria torna-se a maior riqueza, a fortuna volta a estar no entendimento sobre o verdadeiro manifesto do desejo. Do entendimento de si para consigo.

(Marcelo Penteado)

20 de Junho


Rio de Janeiro, 2013

Me chamaram pra rua e eu fui. Manifestei minha curiosidade em simplesmente presenciar um movimento urbano com vida própria.

Mergulhei entre diferentes grupos de pessoas, famílias e desconhecidos, que tinham suas próprias motivações para estar ali.

Testemunhei, impressionado, uma massa reativa, com sentimento coletivo e inexplicável – de patriotismo, indignação e talvez até ressentimentos.

Foi realmente um episódio muito bonito.

Saí de lá, no entanto, com medo. Não das bombas ou do caos. Medo da frustração. De toda a expectativa criada em cima de mudanças, de um certo basta ou de determinado fim.

Medo dos que terceirizam a mudança. Daqueles que estavam ao meu lado apontando o dedo para tudo o que está errado. Destes mesmos que me apontam o mesmo dedo, no dia seguinte, para me xingar no trânsito ou na fila do banco.

Meu medo está no romantismo. Do “gigante que acordou”; da “revolução”; ou das nomeações das primaveras. De uma manifestação narcisista.

Não me entenda errado – minha crítica não está na ida às ruas. Está na volta. Como cada um volta após protestar, gritar e exigir mudanças? Como cada um volta ao seu dia a dia após lutar contra a corrupção?

Uma verdadeira revolução não se concebe nos decibéis de gritos guardados ou nas palavras carregadas de cartazes. Sua vitória está no respeito ao sinal de trânsito, ao pedestre, ao desconhecido na fila da lanchonete, na disciplina diária de boas práticas.

E essas ações, meu amigo, não são televisionadas.

(Marcelo Penteado)

Uma vez fui viajar e não voltei


Faro, 2011

Uma vez fui viajar e não voltei.

Não por rebeldia ou por ter decidido ficar; simplesmente mudei.

Cruzei fronteiras que eu nunca imaginaria cruzar. Nem no mapa, nem na vida. Fui tão longe que olhar para trás não era confortante, era motivador.

Conheci o que posso chamar de professores e acessei conhecimentos que nenhum livro poderia me ensinar. Não por serem secretos, mas por serem vivos.

Acrescentei ao dicionário da minha vida novos significados para educação, medo e respeito.

Reaprendi o valor de alguns gestos. Como quando criança, a espontaneidade de sorrisos e olhares faz valer a comunicação mais universal que há – a linguagem da alma.

Fui acolhido por pessoas, famílias, estranhos, bancos e praças. Entre chãos e humanos, ambos podem ser igualmente frios ou restauradores.

Conheci ruas, estações, aeroportos e me orgulho de ter dificuldade em lembrar seus nomes. Minha memória compartilha do meu desejo de querer refrescar-se com novos e velhos ares.

Fiz amigos de verdade. Amigos de estrada não sucumbem ao espaço e nem ao tempo. Amigos de estrada cruzam distâncias; confrontam os anos. São amizades que transpassam verões e invernos com a certeza de novos encontros.

Vivi além da minha imaginação. Contrariei expectativas e acumulei riquezas imateriais. Permiti ao meu corpo e à minha mente experimentar outros estados de vivência e consciência.

Redescobri o que me fascina. Senti calores no peito e dei espaço para meu coração acelerar mais do que uma rotina qualquer permitiria.

E quer saber?

Conheci outras versões da saudade. Como nós, ela pode ser dura. Mas juro que tem suas fraquezas. Aliás, ela pode ser linda.

Com ela, reavaliei meus abraços, dei mais respeito à algumas palavras e me apaixonei ainda mais por meus amigos e minha família.

E ainda tenho muito que aprender.

Na verdade, tais experiências apenas me dirigem para uma certeza – que ainda tenho muito lugar para conhecer, pessoas a cruzar e conhecimento para experimentar.

Uma fez fui viajar…

e foi a partir deste momento que entendi que qualquer viagem é uma ida sem volta.

(Marcelo Penteado)

Quer ler mais sobre este tema? Recomendo o “Manifesto Viajante”, abaixo no link:

https://sigoescrevendo.com/2013/09/16/manifesto-viajante/

De repente, Barcelona


Barcelona, 2013

De repente, Barcelona.

Barcelona não é nada fácil de explicar. Uma atmosfera urbana envolta por modernidade e vielas carregadas de histórias.

Barcelona é sombria pra quem tem medo. É uma interação contínua, um desafio constante. Um teste quase que de coragem e direção. Um labirinto gostoso de se perder.

De repente, entre o silêncio de becos escuros, uma praça. Com suas charmosas mesas e tendas na calçada, gargalhadas e excelência culinária.

Em suas terrazas o tempo parece passar mais devagar. De forma quase que hipnótica, o momento parece te exigir mais atenção, seja pela paisagem, pelas pessoas ou pela excelente pedida que se encontra em sua mesa.

A temperatura agradabilíssima é um convite às ruas. Pessoas e mais pessoas contribuem para a atmosfera que se forma em verdadeiras clareiras urbanas, protegidas por vielas que afastam todos aqueles que não se permitem aventurar.

Mas Barcelona só é sombria por fora. Na verdade, ela tem uma vontade ardente de ser vivida. É uma sedução constante para aqueles que gostam de surpresas. Ela recompensa os bem-aventurados.

A cada esquerda surgem novas direitas e no horizonte de cada travessia há mais curvas que retas.

Das varandas coloniais à arquitetura de pedra, Barcelona tem na sua forma de acolher uma sensível brutalidade, que é mais bem entendida quando não julgada.

Ao contrário de outros lugares, não reconheço Barcelona pelo nome de suas estreitas ruas. A cada momento traço um novo caminho e ele sempre está certo. Uma infinidade de destinos e escolhas. Uma cidade de aventuras e não de memórias.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
agosto 2013
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