Dramas da vida: quando Golias venceu


Davi e Golias – por Michelangelo

 

Certa noite fui convidado a uma luta que eu não queria lutar. Não que eu seja um covarde, mas pense comigo.

A luz estava apagada e a temperatura perfeita. Para completar o enredo, dois travesseiros, uma almofada e um edredom. Eu já estava prestes a dormir!

A primeira vez que o escutei, pressenti uma ameaça. Ainda com os olhos fechados, me fingi de morto e torci para que aquele pesadelo não se iniciasse. Contei segundo após segundo com a esperança de que ele não me visse. E, de repente, um silêncio absoluto.

O primeiro rasante pareceu ser só um alerta. Pela potência sonora, o mosquito era um dos grandes e estava faminto. O segundo ataque era questão de tempo.

Ele veio.

Pude escutar sua vinda. Imediatamente, uma cena veio à cabeça: eu via seu sorriso sádico, sedento por sangue, marchando em minha direção ao som de “Cavalgada das Valquirias” – um massacre estava por começar.

Primeiro tentei uma armadilha. Ofereci meu ouvido como isca; os olhos estavam abertos como um sentinela e as mãos prontas para golpeá-lo. Senti sua presença próxima ao meu rosto e acertei um impiedoso tapa em minha própria cara – não há vitória sem sacrifício.

Minha alegria durou menos de cinco minutos e logo ouvi o amedrontador som de seu voo novamente. Naquele momento eu tinha um rosto vermelho, um medo crescente e uma ilusão de vitória.

Para ganhar tempo, escondi minha cabeça embaixo do travesseiro, reforcei com o edredom e junto à parede da cama improvisei um bunker.

Passaram-se dois minutos e eu já estava pedindo arrego. Dificuldade em respirar, calor e desconforto. Retirei a proteção e depositei toda minha fé em um código biológico de ética universal – “se um não quer, dois não brigam.”.

Ele me deu cinco minutos de trégua e voltou como um fantasma.

De Sun Tzu à Darwin, procurei explicações para a superioridade do meu adversário no confronto. Considerei um acordo – deixaria meu braço de fora e tentaria dormir: os dois sairiam satisfeitos.

Pois, resolvi enfrentá-lo.

Levantei-me, acendi a luz e incorporei um caçador. Esqueci meus problemas, a hora, o sono e minha compaixão. Era um vingador inapelável. Logo resgatei um spray e recorri, inclusive, às armas químicas.

Em um ataque resolvi o problema.

E não me arrependo.

Mas com aquela noite aprendi – se um dia sentir-se pequeno para realizar algum feito, lembre-se do dano que um mosquito pode causar em sua noite de sono.

(Marcelo Penteado)

Sobre Marcelo Penteado

My writing may speaks for me: https://www.facebook.com/sigoescrevendo

3 Respostas para “Dramas da vida: quando Golias venceu

  1. Gosto muito desse texto. Já li e reli muitas vezes. A cada leitura surpreendo-me com algo, que ainda não havia percebido. As palavras da Cora Coralina resumem o que percebo a cada leitura dos seus textos… acho que são dela… li em algum lugar… sei que não são minhas…retratam como o vejo, um autor… um artista que expressa sua arte através da inspirada “arrumação” das palavras.
    “Escrever é um ato solitário, é colocar-se em palavras. Palavras são como folhas de plátano soltas ao vento… em direção aos novos horizontes. Deixá-las voando irreverentes, sem cordas para serem puxadas e sem lugar determinado para pousarem, sempre a favor do vento. Assim é o ato da escrita, deixar fluir palavras que, voando devagar, ao caírem, adubarão terras distantes.”

    Márcia Moraes

    Curtir

  2. e quando você enfim levanta, acende a luz, procura e eles se escondem?
    daí você deita de novo.
    e lá vem o zumbido.
    argh.

    Curtir

  3. Mariângela Goulart

    São palavras que realmente
    te emocionam!

    Curtir

Deixe uma resposta para Márcia Moraes Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
setembro 2013
S T Q Q S S D
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  
%d blogueiros gostam disto: