Sobre minha conversa com o mundo


Suiça, 2013

Vou te contar o que acontece comigo quando olho para um mapa: vejo histórias sem fronteiras.

Enxergo sorrisos, revejo amigos e lembro-me de paisagens que pude tocar. Imagino como a vida anda naquela esquina ou se aquele mágico ainda está naquela fonte, brincando de encantar vidas.

Vejo países e encontro-me com pessoas em minha memória. Aquela voz; o sotaque. O calor do abraço que o tempo não apaga. O som inconfundível daquele sorriso, naquela situação. Quase me senti lá, de novo.

Olho para meu mochilão e escuto seu chamado. Sim, eu também quero passear. Também me sinto empoeirado e não aguento mais ficar murcho, neste canto de mundo. Esta parede gelada, este armário pra lá de imponente.

Um segredo? Aqui também não é meu lugar.

Aliás, antes o cansaço de uma viagem ao desconforto de uma rotina vazia.

Penso neste imenso globo azul e invejo sua constante rotação. Tenho ciúmes. Igualmente gostaria de ver o Sol de diferentes pontos. Voltar a ser regido por movimentos imprevistos: estar por aí!

Quando um vento me descobre por alguma janela, a vontade é de perguntar-lhe por onde andou. “Como vai o lado de lá?”. Saudades de um tempo em que era leve o suficiente para poder pedir uma carona.

Saudades de ter tudo o que preciso dentro de uma mochila e ainda sentir ter mais espaço para ser preenchido que qualquer casa de vastos metros quadrados. Cheio de vida, vazio de críticas. Encantadoramente entusiasmado.

Viver sob o regime do não saber: o lugar do almoço, a comida do prato, a companhia por perto.

“Que horas são mesmo?”, perguntar por perguntar. A incerteza é o maior estímulo para a vontade de se abrir. Oferecer boas vindas às infinitas possibilidades.

Ser grato de verdade. Pedir informações e agradecer de coração. Sentir-se presente, em meio ao momento único de construção da própria história.

Quando viajo por aí, não sei, teimo em me perguntar por que adiei tanto essa decisão. A vida ordinária me oferece dezenas de âncoras. Não está certo sentir-se leve apenas quando não está pesado. A leveza não é necessariamente um oposto ao peso. A leveza é um estado de elevação.

Quanto fica para trás! A verdadeira experiência tira mais que fotos. Saca, também, espaços. Reorganiza sentimentos e redesenha outros tantos contornos – externos e internos.

Quando converso com a estrada, me perco. Escuto, observo, aprendo. E, no fim, onde quer que chegue, renovo minha certeza que viajar é a melhor maneira de reinventar-se.

 (Marcelo Penteado)

Carta aberta


Suiça, 2013

 

A quem estiver aberto(a),

Por favor, não seja breve. Conte-me uma história. E que não seja rasa. Pode ser incoerente, não ligo. Na verdade, até te entendo.

Sabe, eu não assisto TV. Então, entretenha-me. Sem roteiros. Nem horário comercial. Temos tempo, pode falar.

Se não se importar, passe essa tarde comigo. Vamos tomar um café. Queria te escutar, te conhecer melhor. Ir além das formalidades e de toda esta socialização automatizada.

Ouvir o que você não costuma falar. Fazer perguntas que te façam pensar. Esquecer as respostas reativas. Elaborar uma conversa sincera.

Desligue este celular. Hoje, sou eu quem vibro por sua atenção.

Depois, por que não vamos por ali? Não me importo de andar um pouco. Até gostaria. Conversar caminhando. Caminhar conversando. Tudo junto, embora um de cada vez.

Podemos sentar naquele banco? Sem pressa, esperaremos o sol se pôr. Está quase. Quem sabe em quinze minutinhos.

Não, não tire foto. Olhe, apenas. Ele tem mais a oferecer que uma bela vista. Sinta-o. Deixe-o envolver-te.

Isso.

Não, não vá embora. Por que tanta pressa? O silêncio também faz parte da conversa. É o momento chave de compreensão. Não há nada mais nobre que compartilhar, juntos, um ensejo de silêncio.

Agora que respirou fundo, me diga – quanto tempo já não fazia isso?

Pois é.

Respeitando o mutismo de sua afirmação e posterior ao ensaio de seu sorriso – pergunto-lhe, retoricamente – não foi bom?

(Marcelo Penteado)

Dança do “se”


Berlin, 2013

Se você precisa estar triste para buscar a felicidade, você precisa da tristeza.

Pense.

Se você precisa da doença para encontrar a cura, você precisa estar doente.

(Precisa?)

Se você precisa do desespero para, então, agir, o desespero é sua bússola.

Se você precisa de males para cantar, você não canta por paixão.

Se você precisa perder para valorizar, você precisa perder.

Se você precisa ganhar para ser feliz, você entendeu errado.

Se você precisa de alguém para poder amar, isto não é amor.

Se você precisa do mal para fazer o bem, não reclame se a maldade hoje te cerca.

Se você quer paz e ainda não encontrou, procure em ti.

Se você acha, te falta certeza.

Se você precisa de um motivo, talvez não tenha razão.

Se você precisa, você não está completo.

Se você não está completo, recomece.

Por você.

Porque se você não acreditar, você não é.

(Marcelo Penteado)

Se essa página


Rio de Janeiro, 2013

Se essa página em branco fosse minha vida, seria difícil não acreditar em liberdade. Ora, se assim fosse, como se cada palavra escrita representasse um suspiro de viver, ou o destino está atrasado ou eu realmente sou o autor da minha própria história.

Ainda assim pensando, com simplicidade se apresentariam algumas verdades: não é que cada palavra escolhida faria total diferença? Quando a linha acaba e o espaço é preenchido, todavia ainda há novos espaços em branco.

Não seria melhor continuar ao invés de tentar reescrever?

Então cada fase seria um novo parágrafo. Insistir ou mudar de assunto seria uma escolha absolutamente minha. Enredo, tema, personagens. Assim decidiria pelo tamanho ou onde pôr vírgulas. Até entre a dúvida por perguntas ou afirmações há um momento para pontos finais.

Poderia falar de amor, descrença ou política. Que farei eu deste texto? Não é que a escolha é mesmo minha?

Cedo ou tarde seria preciso encontrar harmonia. Isto é, se esta página fosse mesmo minha vida, acabei de chegar à metade do caminho e nada de ninguém me ajudar. Quanta responsabilidade!

Agora, ciente, poderia deixar a confusão para trás. Trataria de priorizar os bons pensamentos, estes sim selecionam as melhores palavras. Criam as melhores histórias. Seria verdadeiro em minha trama, sincero em meu roteiro e autêntico em minha mensagem. Afinal, a história é minha.

Largaria tudo e me entregaria à poesia. Entre a vida e a ficção, aposto que ambas são sinônimos de criação. Assim, criaria. Por cada novo espaço, novos motivos e novas orações. Leve e fluído.

Se essa metáfora fosse uma semente e encontrasse ambientes férteis, não ficaria mais natural o desabrochar de velhas vidas? Páginas seriam escritas com mais significância e a futuridade dos espaços em branco seria respeitada como ela merece – impávida; infinita.

Mas se toda esta página, que já não está mais em branco, fosse apenas uma página e não uma metáfora sobre a vida, que opção teria senão esquecer este texto, partir para a próxima e, virar a página?

 (Marcelo Penteado)

Velhas verdades


Madrid 2013

A vida tem uma capacidade nada delicada de nos dar verdadeiras lições. Por mais que ignoremos alguns sinais ou silenciamos algumas vozes internas, o momento sempre chega.

A mudança é inevitável. O medo não pode cegar, nem a insegurança tornar-se dominante. Na verdade, é preciso ter muita força para seguir em frente, mesmo quando a mão não tateia os próximos metros do caminho.

Às vezes, inclusive, é melhor calar a insistência das esperanças e fomentar novos sonhos. Abrir espaços. Destampar ao invés de tentar prender. Suportar as oscilações, enfrentar as incertezas e, então, ao seu tempo, moldar sua própria afirmação.

Dominar as artimanhas do desespero. Dormir com a desilusão e acordar vacinado. Olhar para trás, e superar. Reconhecer o chamado da mudança e deixar para trás o que não tem mais sentido, independente do seu valor.

Continuar apesar de tudo. Não por orgulho, nem desapreço ou por indiferença. Por nada. O único motivo para ir é não ficar. A redenção do basta.

Por entre os altos e baixos existem silêncios nada doces de serem experimentados. Manifestos de impotência, verdades tristes. Quando a dor parece ser insuportável, a vida faz questão de nos provar que temos uma força infinita. Podemos nos encarar até o final, mas seremos nós que apagaremos a luz.

Do convívio com a dor nasce o forte. Com a fragilidade que comove o que parecia ser invencível. A superação que reverte a descrença com a sabedoria que só o tempo sabe ensinar.

Podemos não saber o que a vida nos trará amanhã, é sempre uma surpresa. Podemos também não saber como lidar com tantas coisas de ontem, é sempre um desafio.

Podemos tudo, inclusive, renovar.

Deixar novos motivos tirarem os sorrisos para dançar; permitir que a curiosidade suspeite de novos ares; reaprender que, entre um tchau e o novo, há um momento bem-vindo à releitura do que é a felicidade.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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