
Imagina se um dia sua sinceridade acorda de mau humor.
Resolve romper este silêncio reprimido que o império da convivência social impõe sobre as suas próprias fronteiras.
Imagina, que no teatro da sua vida, a sua sinceridade cansou de ser a árvore no fundo do palco. Em meio ao espetáculo de palmas forçadas, imagina se ela se cansa e, no refrão da música, resolve abandonar.
Quando a sinceridade chegasse ao camarim, tomaria um susto ao não se enxergar no espelho. Irreconhecível. Estaria ela camuflada, maquiada, com seus movimentos programados. A fantasia que lhe vestia era o cárcere que lhe privara. Eram tantas raízes que sequer podia andar.
Logo a demagogia viria tentar convencê-la a repensar. Aquela conversa morna, tendenciosa e frívola. Argumentos que, de tão enferrujados, infeccionam as vontades mais sinceras como tétano e submetem o arbítrio a uma coerção comportamental.
Agora imagina que sua sinceridade está obstinada. Suponha que ela tenha conseguido resistir e passou a apenas desejar “bom dia” para os verdadeiros bons dias.
Se o dia pudesse falar – imagina – será que ele não agradeceria à sinceridade por ter sido, finalmente, tão decente?
Assim, pouco a pouco, ela ganharia força, confiança. Promoveria discursos inflamados; incitaria as vontades mais sufocadas. Não demoraria muito para que sua sinceridade lutasse, também, por você.
Sua influência e integridade liderariam uma verdadeira cruzada. Ela conduziria uma marcha de libertação e invadiria seu coração com a ideologia das boas verdades, expulsando angústias, desapossando mentiras e alforriando lágrimas.
E se tudo isso acontecesse, tão real quanto agora, não lhe agradeceria a felicidade por tornares tu a mais crível das companhias?
(Marcelo Penteado)