Sábio de outrora


Berlin, 2013

Queria eu encontrar um sábio pela estrada.

Sentir-me involuntariamente convencido a esquecer do tempo e a desapegar das minhas obrigações. Sentar-se ao seu lado para nada mais que ouvir.

E ouvir.

Abstrair-me de palavras, significados e necessidade de resposta.

Queria eu protagonizar suas histórias. Imaginar cada cor, detalhe e lamento de seu passado. Encontrar-me aos olhos de um guru. Viver seus momentos de despedidas, extremas alegrias e descobertas banais.

Libertar-me pelas mãos de suas contundes orações. Aprender com seus erros, acreditar em seus sonhos. Deixar minhas emoções seguirem seus olhos. Não só parar, mas refletir. Calar a mente para escutar a alma.

Queria eu escutar mais histórias e menos verdades. A interação com um exemplo é o maior dos aprendizados. Não há lição maior de vida que ser conduzido por entre relatos de uma biografia anterior. Ao vivo, sem filtros.

Apesar do silêncio dos seus pesares. Além dos fantasmas de sua vida. Entender que muitos dos meus problemas nem problemas são. Ser convidado a refletir sobre o valor que damos ao que é inestimável. Delicadamente.

Passar horas sem a menor pressa. Esquecer do resto sem qualquer saudade. Reavaliar minha vida por entre outros olhos. Levantar-me mais vazio para seguir mais pleno.

Repensar por momentos. Cultivar novos enigmas, subir alguns degraus. Lembrar-me de coisas que jamais poderia ter esquecido e compartilhar o que tenho de melhor. Ser consequência de sua sabedoria.

Queria eu que ele dissesse – tudo aquilo que eu um dia gostaria de ouvir – e, no fim, descobrir que não há fim. Ouvir, bem baixinho, que justo mesmo é o tempo. E, como um sussurro, descobrir sua mais gritante fraqueza. O tempo leva tudo o que se tem, mas nada que se sente.

Talvez por aí, com mais sentido que sentenças, está uma estrada que eu gostaria de seguir…

 (Marcelo Penteado)

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Sobre Marcelo Penteado

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2 Respostas para “Sábio de outrora

  1. Sérgia de Lima Juraski

    “O tempo leva tudo que se tem, mas nada que se sente.”
    Isso é sábio. Talvez você seja o sábio de outrora.

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  2. “Queria eu encontrar um sábio pela estrada.” Eu também!

    Nossa! Preciso de fôlego! Esse texto traduz, com uma delicada simplicidade, bem característica deste jovem autor, uma voraz reflexão. “Calar a mente para escutar a alma.” Meditar é a arte de não fazer nada… de calar a mente e sentir a alma..

    “O tempo leva tudo o que se tem, mas nada que se sente.” Sempre estou sentindo outros textos, truncados em suas contundentes abordagens, como este de Álvaro de Campos:

    “Aproveitar o tempo!
    Ah, deixem-me não aproveitar nada!
    Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!…
    Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
    A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
    O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
    O pião do garoto, que vai a parar,
    E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
    E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.”

    Agora…Krishnamurti…
    O autoconhecimento é o começo da sabedoria, em cuja tranquilidade e silêncio encontra o Imensurável.

    Parabéns! Brilhante oportunidade, proposta em seu texto, de nos deslumbrarmos com o prazer da convivência conosco, nas vias do autoconhecimento, da sabedoria, da meditação. Tudo esta presente, implícita ou explicitamente, em suas palavras.

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