Sobre viagem


Cappadocia, 2012

 

Até então, era o mais distante que eu havia estado de casa. A sensação era poderosa. Reforçava uma espécie de necessidade de ir além. Estar longe era como me alongar: fazia sentir-me maior, relaxado e íntimo ao prazer.

Muito sedutor dominar o desconforto. Sentir-se bem em ser absolutamente estrangeiro. Talvez a segurança em ser tão desprendido exista na falsa esperança de que todas as raízes permanecem intactas, em casa.

Quando a distância age, no entanto, a própria vida muda os caminhos. Ou os caminhos mudam a vida, pouco importa. A volta, de tão longe, se transforma em uma nova ida. O tempo, o afastamento e as experiências são um convite irreversível à mudança.

Viajar remodela compreensões. Existe a distância que se mede e aquela que se sente. Existe um tempo para nada e um tempo para tudo. Existem algumas verdades que parecem até mentira.

Geralmente, consequente ao retorno, manifesta-se um sentimento inconveniente. A maior distância do mundo experimenta-se, curiosamente, dentro da própria casa. O lugar que era para ser o mais seguro, passa a se tornar desconfortável. Todo o desconsolo de ser estranho em seu próprio ninho.

Como não caber mais.

A sensação é igualmente poderosa. Contudo, oprime. Todo o aprendizado obtido começa a fazer sentido. Lembranças voltam com força. O conhecimento parece ter vida. Por ser vivo, escapa ao controle. Neste momento, fugir passa, então, a ser uma motivação a viajar.

A ideia de partir para se encontrar é tão atraente quanto romântica. Uma cláusula condicional à satisfação plena. Sempre lá, sempre longe. Estar fora para se sentir inteiro. Eis o martírio de muitos que viajam.

Até que, nem mesmo a viagem pode responder algumas perguntas. O prazer é sempre indescritível. Porém, é preciso algo mais.

Um bom viajante também vai para dentro. Ouve seu espírito. Desafia-se a entender que não é o lugar que lhe traz a sensação de liberdade. Compreende o propósito do ir e a interação do estar. Em si,  com resto.

A boa viagem, em realidade, está no encontro da alma com o destino.

 

(Marcelo Penteado)

Da escola


2013-12-09 19.44.31

Na escola, premiam-se os que têm as melhores respostas. Faz parte do critério de aprovação. Nota, conceitos. Passamos a precisar de algum tipo de consentimento para sermos aprovados. E evoluir.

Com o tempo, essa semente germina e passamos a ser frutos da dependência. Do que pensam, do que é certo, do que dá resultados. “Passar de ano”, como se o tempo precisasse de tais critérios para seguir em frente.

Assim, crescemos, nos reproduzimos e morremos. Sempre esperando por um momento ou sinal de aprovação. O ambiente é medido por comparação a colegas e ensinamentos de um superior.

A ação passa a considerar, previamente, a força da reação. Uma espécie de previsão, expectativa e resultados planejados. Neste momento, o objetivo passa a ser mais valorizado que o caminho.

Daí surge o “melhor pensar duas vezes”. Ou melhor, ao invés de se refletir o que se quer, passou-se a ser importante tentar medir o impacto daquilo que se quer. O erro passou a ser o maior vilão. Logo ele, um dos grandes professores da vida.

A verdade deixou de ser o que vem de dentro e passou a ser o consenso da maioria. Mais confortável que ser verdadeiro, é ser normal.

O conforto até ganhou uma zona. Geralmente regida por uma TV e sonhos distantes. Paradinho, esperando milagres acontecerem. Só que o único milagre da vida é o tempo. Ele é eterno, nós não.

Já, isto, não aprendemos na escola.

Não nos ensinam que crescer, em tamanho, é inerente à nossa vontade. A natureza já se responsabiliza por isso. O grande desafio é que nós mesmos precisamos ser maiores que parecemos ser. E isso tem nada a ver com o corpo.

Também não nos ensinam que a reprodução vai além da família. Temos o poder de acrescentar, ao mundo, ideias. Valores, manifestos genuínos. Temos oportunidade de reproduzir a vida através de nós mesmos, para uma nova geração.

Dividir causas, multiplicar efeitos. E vice-versa.

Muito menos nos ensinam sobre a morte. A morte que acontece todos os dias, em cada momento que renunciamos às nossas vontades e buscamos aprovação. A morte de um sorriso sincero, de uma paz de espírito.

A morte da vida que poderíamos ter, caso não fosse concedido ao externo, a diretriz de tantas decisões.

(Marcelo Penteado)

Duelo de grandes argumentos


Frankfurt, 2012

“– Você não vê que está nublado?!” – afirmou o pessimismo – “E ainda teima em perguntar a razão de eu não estar me sentindo bem. Todo este céu poderia estar azul. Por onde se enfiou o sol, ser único capaz de aquentar toda esta frieza social, espacial e humana?” – Com seu ar rabugento e um tanto quanto descrente, insistia:

“– Repare que o verde dessas árvores ficou até meio cinza. Ô, dia feio! Dias como este não merecem figurar o calendário. Um desânimo, uma nostalgia para lá de amargurada. Tão intragável que da nem vontade de viver.” – queixou-se.

Muitos ouviam o pessimismo com atenção. Procuravam sentidos, significados para justificar o som persuasivo de suas palavras. Balançavam a cabeça, timidamente. Assim que entravam pelos ouvidos, buscavam, no cérebro, alguma identificação.

Convincente é o discurso deste grande orador. Dá vida e projeção aos seus lamentos. Quase irresistível discordar que cinza seja tão triste, embora cinza seja apenas uma cor e tristeza outra palavra qualquer.

Por um mundo democrático, não tardou para chegar a corrente otimista. Dizem as más línguas que ela não é nada fácil de achar. No entanto, em revés às críticas sobre sua frequência, cá vem o próprio otimismo com sua enérgica intensidade:

“– É verdade, está nublado!” – concordou – “Que pouco importa a dança dos céus? Tal qual chove, chove amores! O sol também precisa descansar. Vejo nas nuvens uma camada sedosa, que filtra o calor para dar sombra às arvores! Quem mais daria sombra às arvores, para que possam elas nos dar sombras, em dias de sol?” – indagou:

“– Respiramos o mesmo ar, por que insiste em ver outras coisas? Tristes mesmo são as entonações de suas palavras, que, segundo a linguagem, neutras nasceram.” – enquanto logo prosseguiu – “A nostalgia é a saudade mal compreendida. Sentir falta não pode ser sinônimo de se sentir incompleto. Dê-se uma chance de sentir inteiro, hoje, independente de tudo e a saudade será tão linda quanto o sorriso que brotará em você”.

Alguns se calaram. Ouviram atentos aos dois discursantes. A verdade é que ambos possuem razão. Afinal, a razão é uma linguagem lastrada nas palavras dos homens. Contudo, o entendimento não se contenta apenas com palavras, precisa consultar o sentimento experimentado antes de uma decisão.

Assim, pois, como em uma arbitrariedade qualquer, a vida decidiu que qualquer fato seja passível de debates como o anterior. Somos tudo, menos vítimas. Ouvimos, escolhemos e batemos o martelo. É nossa absoluta responsabilidade sobre qual versão acreditar como a verdadeira sentença. Somos juízes de nenhuma verdade, embora ministros de muitas escolhas.

 (Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
dezembro 2013
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