Duelo de grandes argumentos


Frankfurt, 2012

“– Você não vê que está nublado?!” – afirmou o pessimismo – “E ainda teima em perguntar a razão de eu não estar me sentindo bem. Todo este céu poderia estar azul. Por onde se enfiou o sol, ser único capaz de aquentar toda esta frieza social, espacial e humana?” – Com seu ar rabugento e um tanto quanto descrente, insistia:

“– Repare que o verde dessas árvores ficou até meio cinza. Ô, dia feio! Dias como este não merecem figurar o calendário. Um desânimo, uma nostalgia para lá de amargurada. Tão intragável que da nem vontade de viver.” – queixou-se.

Muitos ouviam o pessimismo com atenção. Procuravam sentidos, significados para justificar o som persuasivo de suas palavras. Balançavam a cabeça, timidamente. Assim que entravam pelos ouvidos, buscavam, no cérebro, alguma identificação.

Convincente é o discurso deste grande orador. Dá vida e projeção aos seus lamentos. Quase irresistível discordar que cinza seja tão triste, embora cinza seja apenas uma cor e tristeza outra palavra qualquer.

Por um mundo democrático, não tardou para chegar a corrente otimista. Dizem as más línguas que ela não é nada fácil de achar. No entanto, em revés às críticas sobre sua frequência, cá vem o próprio otimismo com sua enérgica intensidade:

“– É verdade, está nublado!” – concordou – “Que pouco importa a dança dos céus? Tal qual chove, chove amores! O sol também precisa descansar. Vejo nas nuvens uma camada sedosa, que filtra o calor para dar sombra às arvores! Quem mais daria sombra às arvores, para que possam elas nos dar sombras, em dias de sol?” – indagou:

“– Respiramos o mesmo ar, por que insiste em ver outras coisas? Tristes mesmo são as entonações de suas palavras, que, segundo a linguagem, neutras nasceram.” – enquanto logo prosseguiu – “A nostalgia é a saudade mal compreendida. Sentir falta não pode ser sinônimo de se sentir incompleto. Dê-se uma chance de sentir inteiro, hoje, independente de tudo e a saudade será tão linda quanto o sorriso que brotará em você”.

Alguns se calaram. Ouviram atentos aos dois discursantes. A verdade é que ambos possuem razão. Afinal, a razão é uma linguagem lastrada nas palavras dos homens. Contudo, o entendimento não se contenta apenas com palavras, precisa consultar o sentimento experimentado antes de uma decisão.

Assim, pois, como em uma arbitrariedade qualquer, a vida decidiu que qualquer fato seja passível de debates como o anterior. Somos tudo, menos vítimas. Ouvimos, escolhemos e batemos o martelo. É nossa absoluta responsabilidade sobre qual versão acreditar como a verdadeira sentença. Somos juízes de nenhuma verdade, embora ministros de muitas escolhas.

 (Marcelo Penteado)

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2 Respostas para “Duelo de grandes argumentos

  1. Sérgia de Lima Juraski

    Talvez em alguns dias não seja propriamente o dia que se nos afigura triste, lamentoso. Nesses dias, quando os tenho, sei que sou eu que os faz assim. Não em todos os dias nublados. Ás vezes em alguns com sol escaldante. Sou otimista por natureza mas…

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  2. Brilhante texto!
    Dialética trivial: otimismo e pessimismo. O que surpreende o leitor, desavisado, é a forma como foi conduzida. Simples, mas profunda. Em meio à persuasão do otimismo, nos deparamos com: “A nostalgia é a saudade mal compreendida. Sentir falta não pode ser sinônimo de se sentir incompleto. Dê-se uma chance de sentir inteiro, hoje, independente de tudo e a saudade será tão linda quanto o sorriso que brotará em você”.
    Marcelo, Antonio Gramsci, filósofo italiano e teórico político, foi o mais célebre prisioneiro do fascismo, nos deixou esta reflexão: “Meu estado de espírito sintetiza estes dois sentimentos [otimismo e pessimismo] e os supera: sou pessimista com a inteligência, mas otimista com a vontade. Em cada circunstância, penso na hipótese pior, para pôr em movimento todas as reservas de vontade e ser capaz de abater o obstáculo.” Mais pessimista que otimista, talvez. Contudo, como… “Somos juízes de nenhuma verdade, embora ministros de muitas escolhas.”…fica a citação como mais uma possibilidade, dialética.

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