A natureza do inexplicável


Barcelona, 2011

Consequente a minha insistência em abordar o assunto, fui uma vez perguntado por que tamanha idolatria em viajar e morar fora.

Surpreendi-me com minha incapacidade de descrever o sentimento. Palavras não resolvem todas as demandas da linguagem.

Como traduzir a experiência e suas radiações para a imaginação de outrem?

Nada cabe, pois, viajar é andar nu. No início, pode causar estranhamento. Insegurança por estar despido, sem proteções ou qualquer outra camada.

Bate vento, faz-se frio. Medos frente a frente, sem bolso para segurar. Inibição em falar, agir, tentar…

Até que há um momento, onde cada um tem seu quando, que uma pergunta faz mais sentido que qualquer resposta:

Existe algo mais confortável que estar nu?

(Marcelo Penteado)

Papo de intercambista


2011, Valencia

Somos bons perdedores.

Reconhecidamente gratos, aliás. Nunca saberíamos disso sem viver o que vivemos. Cada único momento. A experiência desafiadora de sair de casa. Ou mais – a libertadora sensação de sentir a casa sair de nós.

Medos, voláteis, pouco a pouco se esvaziaram. O aeroporto, a partida, a ilusão de estar só. Como é bom não saber que aquele olhar meio perdido pela janela do avião é a última versão inédita de nós mesmos. Jamais retorna o mesmo que vai.

Ao contrário do que geralmente aprendemos, chegar é, apenas, o primeiro passo. Um campo aberto de possibilidades se inicia a partir de então. É como ter a oportunidade de reconstruir parte da história de sua vida, de forma consciente. Novos círculos familiares, novos grandes amigos, novas descobertas e habilidades.

O intercambista não descarta nada.

Tudo que se vive significa um aprendizado ou experiência. Viver fora é um processo contínuo de absorção. Todas as pessoas importam, assim como qualquer caminho contribui. Além de todas as observações, não há conversa que se jogue fora.

Aprendem-se línguas, hábitos e, inclusive, novas formas de aprender. A sensação única de surpreender-se consigo. Passar a entender que você é capaz de ir além do que antes acreditava. Superar-se e ser superado. O respeito às diferenças é o ponto chave da convivência construtiva.

Perder, no entanto, é o maior dos aprendizados. Quando perdem-se barreiras, ganha-se o horizonte. Somos bons perdedores porque entendemos que a circunstância da perda é uma cláusula condicional dos momentos inesquecíveis.

O que passamos a chamar de casa, não tarda, fica para trás. Os remotos desconhecidos que se tornam melhores amigos, a distância, um dia, os separa. O intercâmbio é um período de conquistas e perdas diárias. Intensidade e esvaziamento. Liberdade e desapego.

O momento da volta é uma grande lição. Quando a sensação parece ser de deixar para trás tudo aquilo que se conquistou, voltar em paz significa entender que nada daquilo realmente te pertenceu. Pelo contrário, foi você quem se entregou à vida.

Viver uma experiência é melhor que tê-la: isso é saber perder.

 (Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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