Papo de intercambista


2011, Valencia

Somos bons perdedores.

Reconhecidamente gratos, aliás. Nunca saberíamos disso sem viver o que vivemos. Cada único momento. A experiência desafiadora de sair de casa. Ou mais – a libertadora sensação de sentir a casa sair de nós.

Medos, voláteis, pouco a pouco se esvaziaram. O aeroporto, a partida, a ilusão de estar só. Como é bom não saber que aquele olhar meio perdido pela janela do avião é a última versão inédita de nós mesmos. Jamais retorna o mesmo que vai.

Ao contrário do que geralmente aprendemos, chegar é, apenas, o primeiro passo. Um campo aberto de possibilidades se inicia a partir de então. É como ter a oportunidade de reconstruir parte da história de sua vida, de forma consciente. Novos círculos familiares, novos grandes amigos, novas descobertas e habilidades.

O intercambista não descarta nada.

Tudo que se vive significa um aprendizado ou experiência. Viver fora é um processo contínuo de absorção. Todas as pessoas importam, assim como qualquer caminho contribui. Além de todas as observações, não há conversa que se jogue fora.

Aprendem-se línguas, hábitos e, inclusive, novas formas de aprender. A sensação única de surpreender-se consigo. Passar a entender que você é capaz de ir além do que antes acreditava. Superar-se e ser superado. O respeito às diferenças é o ponto chave da convivência construtiva.

Perder, no entanto, é o maior dos aprendizados. Quando perdem-se barreiras, ganha-se o horizonte. Somos bons perdedores porque entendemos que a circunstância da perda é uma cláusula condicional dos momentos inesquecíveis.

O que passamos a chamar de casa, não tarda, fica para trás. Os remotos desconhecidos que se tornam melhores amigos, a distância, um dia, os separa. O intercâmbio é um período de conquistas e perdas diárias. Intensidade e esvaziamento. Liberdade e desapego.

O momento da volta é uma grande lição. Quando a sensação parece ser de deixar para trás tudo aquilo que se conquistou, voltar em paz significa entender que nada daquilo realmente te pertenceu. Pelo contrário, foi você quem se entregou à vida.

Viver uma experiência é melhor que tê-la: isso é saber perder.

 (Marcelo Penteado)

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Sobre Marcelo Penteado

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6 Respostas para “Papo de intercambista

  1. Daniel Cardoso

    Parabéns pelo texto. Tenho 17 anos e já se passaram mais da metade do meu intercâmbio aqui nos Estados Unidos. Fiz amigos aqui que nunca esquecerei. Me arrepio e meus olhos enchem de lágrimas toda vez que leio seu texto! Só quem tá nessa pra saber o sentimento.

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  2. Oi!
    Acabei de repaginar o meu blog e te incluí no meu link de Blogs que Amo!
    Sempre bom saber onde os “ciganos” desse mundo como eu, andam.

    Beijos
    Barbara

    http://www.barbarapapa.com

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  3. Lucely

    Nossa texto perfeito!! Quanta graciosidade nas descrições, lindo mesmo! Acabei de conhecer vc, Marcelo Penteado, e ja me apaixonei por seus textos! Parabéns!! Obrigada por nos dar esse imenso prazer em lê seus textos maravilhosos e ainda, nos ensinar mil coisas a cada nova linha deliciada pela leitura!!
    Adorei!!

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  4. manu

    Acho que eu não saberia descrever tão bem essas sensações.

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  5. Elaine

    Muito bom!! Voltei ao meu passado de “intercambista”.

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  6. Que maravilha! Vc voltou a publicar seus textos… voltamos a nos deleitar … prazerosa leitura…
    Agora, sim, começou 2014.
    Sigasescrevendo que seguiremoslendo… mundo afora…
    E assim… a vida tem sempre razão…

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