Preguiça Social


2014, Rio de Janeiro

 

De um caderno um tanto manso, inéditos escritos de um velho não tão longe assim, uma lição atemporal que nem mesmos todos séculos poderiam explicar:

 “Um vento cai melhor que uma palavra. Não me venha com essa de solidão. Vivo um momento de preguiça social. Uma espécie de necessidade involuntária de passar mais tempo comigo.

A troco de nada.

Na verdade, não tem origem em nenhum motivo que possa ser consertado por alguém. Nem ninguém. Não há qualquer ligação com mágoas ou relações arranhadas. A razão é positiva, viva, positivista!

Cercar-me de desconhecidos me impossibilita de me conhecer melhor. Conhecidos também não têm ajudado. Fazem-me perguntas que nem mesmo eu sei dizer. Aliás, são como aromas que sigo dentro de mim.

Como o calor da pele caçada, não há deserto que perdoe quem fique parado. A maior penitência da imobilidade é desinteressar os olhos. Partir para a mudança é romper com a realidade presente.

Ausentar-se, portanto.

Minha falta de instrução religiosa, por outro lado, me deixa em dúvida se preguiça social é igualmente um pecado. Ou se pecado mesmo é fazer da vida um ato sem graça. No entanto, ensina melhor meu espírito quando pede silêncio e deixa a própria verdade falar.

A distância rega a vida das relações. Traz à superfície o crescimento, permite ao tempo assinar sua obra. A preguiça, mesmo, não é de viver. É apenas da vontade de estar. Há no isolamento uma vívida intensidade, uma energia permissivamente egoísta, que só entendem os vulcões.”

 (Marcelo Penteado)

Memórias escritas, caminhos já feitos


Madrid, 2011

Um outono me disse que outros virão. Quanto ao tempo, tranquilizei-me.

Foi tamanha certeza que me deu segurança para seguir incerto. Perto do longe, por um pouco mais de tempo.

Caminhei por vilas, com becos guardados de silêncio e sombra. Nada que desse mais medo que estar forrado em lãs, guardado do céu. Justamente quando não tive endereço, senti a presença de casa.

Sem nuvens, por terra, pisei sensível para me guiar sem chão. Entre pegadas e memórias, optei pelo qual podia levar comigo.

Vi o verão tirar férias em outro lugar. Sempre um prazer.

Continuei e não só meu cabelo cresceu. Quanto mais calado, mais meus pensamentos me ensinaram a hora exata de falar. Logo descobri que eram raras.

Por falar em memórias, se bem me lembro, reparei mais folhas que pedras no caminho.

Levei meses para entender que a primavera estava em meus olhos.

(Marcelo Penteado)

Humilde Opinião


2011, Amsterdam

Para quem não hesita em buscar, encontra-se cada vez mais acessível histórias de pessoas que passaram a escolher viajar por uma questão maior que o próprio destino da viagem.

Não é difícil achar, muito menos entender, casos de quem largou tudo para simplesmente sair em busca de algo maior. Reconstroem suas vidas, passam meses na estrada ou somente vão.

Aquele que nunca vai provavelmente acredita que viajar desta forma é uma ideia arriscada. Pode achar que é uma perda de tempo, ancorada por uma má decisão, do qual não há nenhum retorno tangível, além de fotos e presentes.

Nós, entretanto, vemos outro risco – deixar a rotina camuflar o dinamismo natural da vida.

Viajar é um investimento orgânico. Um processo de mudança de consciência. Por definição, envolve muito mais que o aspecto presencial. Quando se sai de onde está, saem também medos, pensamentos e limites.

Abre-se espaço, então, para o enriquecimento cultural. Um arsenal de experiências que servem de subsídio para novas formas de pensar e agir. Princípio de mudanças tanto na esfera pessoal quanto nos campos profissionais.

Geralmente, quem passa a viver desta maneira, costuma concordar que o fato, quando acontece na rua, tem mais verdade que no noticiário. A imperfeição da visão dos olhos, às vezes, tem mais valor que a lente de uma câmera. Ou que, nem de longe, o silêncio das paisagens está retratado nos quadros.

É um câmbio de valores. Uma nova possibilidade de enxergar o que está ao redor. Seja por novos filtros ou além das camadas.

Todavia, há quem siga com medo de encarar mudanças. Sem sequer desconfiar que o medo de perder o que se tem é o que priva de ter mais. A falsa segurança da estabilidade cria uma realidade frágil e camuflada. Tudo que está no contorno, está prestes a transformar.

Nada se isola da mudança.

Há um grande risco ao apostar em raízes, num mundo que os ventos têm forças suficientes para mudar direções.

 (Marcelo Penteado)

Filosofia do “chega”


Madrid, 2011

Não sei exatamente se há um momento chave. Muito menos sei descrever a gota fotografada no flagrante do transbordo. Seu tamanho, densidade ou relevância. A única condição que exige o desencadeamento de uma mudança é o fim da validade de um ato.

Tudo que começa no silêncio encontra uma maneira de conseguir sair.

Cedo ou tarde, eis a hora que não dá mais: a rescisão deixa de ser uma ideia. É necessária uma ruptura.  A começar pelo basta de tudo aquilo que não se suporta mais.

Na esquina do limite não há espaço para fazer retorno. Tem-se apenas o que se permite. Leva-se somente o que cabe.  Andar para frente sem olhar para trás.

Decisões adiadas, já cansadas de esperar. O tormento de sonhos exilados. O futuro também sabe enviar fantasmas. Tantas linhas – em vão tecidas – viraram nós. Ou contra nós.

“Chega!”.

Quando ergue-se o muro do basta, destacam-se, à vista, apenas tudo que tem espaço para crescer. Inegavelmente claro não por ter mais altura, mas pela vitalidade de suas raízes.

A voz do “chega” tem um tom de cansaço. Um pouco mais reticente, pode-se dizer. Aprendeu, controversamente, a importância em valorizar as escolhas francas. Nas apostas da vida com o tempo, raramente duram os blefes.

Nega-se com mais certeza. Escolhe-se, consentido de convicção. Maturidade talvez seja enfrentar o próprio caminho e ir de encontro ao tropeço de suas próprias pedras.

O abraço paterno às consequências. Aceitar – com a consciência de quem pôde decidir.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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