Mel


2014, Curitiba

2014, Curitiba

Desperta um homem pela manhã. Seus lentos olhos abrem, embora já atrasados para a cidade. Levanta-se, o homem, puxado, recorrido pelos anseios venenosos que o tiram o sono.

Ao banho, seu traje, hábitos de homem. Cruza cômodos, incômodo, deixando para trás sua oportunidade de descanso. Na cozinha, o último respiro. Busca ao redor, entre armários, dentro da geladeira – respostas, saídas.

Do que alimentar-se, quando o apetite falha?

Enxerga, o homem, um frasco de mel. Doce, saudável, um suspiro de vida. Em um canto isolado, uma garrafa indecisa. Convidado, caminha até ela, com olhar de agrado.

Segura-a, cai-se em surpresa: pares de formigas boiam, mortas, em plena recompensa ao êxtase – supõe. Mumificam-se, reféns de um sonho glorioso, na atmosfera mais abastada e afortunada de suas perspectivas.

Boiam, mortas.

Pequeno demais o mundo. Os sonhos. Do tamanho de uma garrafa. Doces crenças. O silêncio do universo coube naquela cozinha. O silêncio da percepção de um homem sobre sua natureza.

(Marcelo Penteado)

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Sobre Marcelo Penteado

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3 Respostas para “Mel

  1. Sérgia de Lima Juraski

    Belo texto. Qual formiga queremos, às vezes, morrer ao usufruir um sonho, um doce sonho, na beleza instantânea de termos conseguido nos deleitar em mel, em delícia.

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  2. Márcia Moraes

    “(…) O silêncio do universo coube naquela cozinha. O silêncio da percepção de um homem sobre sua natureza.”
    Silêncio. Demanda inúmeras reflexões e aprendizados. Poderíamos inferir que o silêncio é a gentileza do perdão que se cala e espera o tempo.

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  3. Ana Silva

    O despertar de todos nós, ou quase todos. Incrível, como observamos as formigas e seus exércitos, sem entender porque movimento tão frenético…

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