Filosofia sobre viagem


 

2015, São Paulo

2015, São Paulo

Gosto de viajar por ser uma experiência que, para começar, é preciso sair.

Um exercício de deixar, um exercício de se abrir. Por excesso de naturalidade, uma experiência transitória.

Viajar pressente atitude destemida.

Sensibiliza o olhar a fazer mais de uma pergunta antes de dizer o que viu. Com o tempo, ora apelidado de bagagem, fala-se mais até à nossa mente e menos pro mundo de fora.

É tão melhor permitir ao mundo nos ter algo a dizer.

A viagem entrega à vida um sentido de estar. O valor de ter existido sob diversas combinações e ter convivido com outras influências culturais, em outro tempo presente. Perceber que colecionar momentos é também um tipo de riqueza ao alcance de nossas escolhas.

Através das viagens, acréscimos. Do mais que vejo, menos falo e tanto ouço. Bagunço o que eu sinto e entendo outros entendimentos.

Diferente da maioria das experiências, sua lógica nasce diferente – da saída ao início, do momento ao recomeço. Reconstrução. A mente se reabastece de diferentes percepções apresentadas no caminho. E em cada parada também.

(Marcelo Penteado)

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Safra de Gurus


 

2015, Rio de Janeiro

2015, Rio de Janeiro

 

É preciso ter bastante cuidado para não sobrecarregar a mente com ensaios sobre verdades.

São tantas coisas sendo ditas, por tantos heróis de si mesmos. Gurus de palavras bem orquestradas.

A causa, provavelmente nobre, de iluminar caminhos terceiros pode camuflar a frustração de quem sequer encontrou-se por completo.

Indispensável, por sua vez, a oxigenação de estar perdido. Do sentimento à percepção. O jogo de xadrez com a mente, a conversa múltipla de uma só voz. A desproporção plural e superior de pensamentos por segundo.

A indecisão se alimenta de possibilidades que procriam na mente, em um descontrole desenfreado.

Tudo que se sente enquanto não se sabe com exatidão. Até perceber a beleza de confundir no horizonte esperança e consolação. Tolerar o medo do não saber é o que nos reconecta a confiar nos próprios sentidos.

Como passar por isso, se não só?

Embora a inércia seja a vitória da morte, a vida não é exatamente seu oposto. Há no conflito o combustível da alternância – a mais pura fração incandescente do encontro. 

Um momento é a sobreposição de outro. O espaço encontra significado entre uma vírgula e a eternidade. Ao final, apesar do tanto que se fala, precioso é o que se escuta no silêncio.

(Marcelo Penteado)

 

Criança


2014, Cusco

2014, Cusco

Criança corre descalça.

Entende o mundo com a sola do pé. Precisa sentir, sujar-se, entregar-se em toque e alma para saber o que é. Corre com o vento, contra o vento, sem sequer ligar pra ele. Faz seguir a direção da descoberta.

Pisa no gramado, em companhia ao jardim.  Não lhe pertence fugir da lama. Vê nas folhas um caminho a desviar. Brinca, brinca até encontrar outro motivo para brincar.

Criança não precisa de nada, por já ter tudo. Sobe o portão, escala a mureta. Busca no vazio a importância que ele tem. Afinal, é divertido dar significado às coisas. Toca na árvore, antes subi-la. E decide, tão justa a transposição dos segundos. Olha, toca, e deixa. Com a pureza, ainda, do anjo que nem se lembra ser. Ou, pela realidade, confunde-se.

Criança, quando fica em silêncio, é por escutar o cochicho da verdade. Sua vontade plena de querer viver, brincar.  Corre, pula, tira o cabelo do rosto. Observa, sente e vai. Até quando volta, vai. Tudo é novo, intrigante, dá gargalhadas de prazer.

Criança anda despreocupada. Pega um graveto no chão sem pensar que pode ter formiga. Corre atrás do passarinho e só não voa por que não quer. Dá voz à natureza das coisas.  Apoia num galho bamba, que há anos não havia de ser tocado. Este galho, que podia ser eu. Que te olha de longe, embora te respire ofegante. Nostálgico como a luz que denuncia o outono.

Crianças vão como o próprio tempo. No único sentido que se denota – onde o presente abre a gaiola para o futuro. Adulto nasce quando, ao escorregar o olhar em outras direções, compõe o momento com entoações de saudades.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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