Compromisso com a estrada


2013, Berna

2013, Berna

Viajar é movimento. Um caminho, um pensamento. Para fora, para dentro. Um ato de se tornar, enquanto se vive. Muito mais intenso do que a simples existência.

Viajar é ganhar, é perder. Uma sonata de amigos e histórias. Atos novos, sapatos velhos, testemunhos vitalícios de momentos pontuais.

Memórias e sonhos, duetos controversos. Milhares de quilômetros, centenas de batimentos, frequência e distância sob a mesma regência.

Saudades… respira. Viajar é tempo, é verbo, é um fato. Um curso que segue, sigo, siga. Doravante um rio, que nada.

A força que nasce até explodir. Bela, plena, passional. Vem de dentro, quente feito fogo, fugaz como tosse.

Passa um tempo, tantas luas e até um vento. Natural mesmo, no entanto, é a vontade que renasce. Resguarda-se a convicção cega, incondicional, o compromisso com a estrada. Viajar é semente – cai lenta na mente e cria raízes na alma.

 (Marcelo Penteado)

Ora papel, era árvore, foi semente


“Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.” Manoel de Barros

Tenho dificuldade em dar títulos às coisas. Todas aquelas sem nomes, sentido definido ou função importantitória. Aquelas coisas meio sem rima, das poesias de Manoel.

Meus textos carecem de utilidade. Das incompletudes figurativas, do toque final das frases soltas, sem inícios. Invento palavras por não saber o que dizer. Jogo-as para fora de mim. Alívios, (envergonhados).

Escrevo sem meios, meio sem fim; pois, começo por falta de sentido. Escrevo porque não entendo. A natureza que só existe e não busca se explicar. A natureza de Pessoa. A natureza de Manoel. A natureza perdida que meus olhos, às vezes, se lembram de ver.

E não muitas outras vezes, escuto-vejo pássaros como as árvores desse mesmo Manoel. Aquela falta de importância na vida. E tantas suas outras coisas que merecem ser notadas por não serem, absolutamente, nada.

Olho para tantos nadas com a nostalgia de uma pedra. Um anônimo sentimento de vazio. Um azul meio cinza, sem graça como palavras no diminutivo. A respiração falseia, sem cor. Titubeia, por falta de galhos.

Também queria ser árvore, para não ligar para palavras nem significados ocos. Vigiaria o sigilo dos qualqueres, silencioso às importâncias. Estar seria minha postura de viver: sonho dos herdeiros da poesia – tornar-se, enfim, paisagem.

(Marcelo Penteado)

Viagens e Olhares


2014, Valparaíso

2014, Valparaíso

Viajar é minha maneira de estar só. De enxergar todo o resto como uma unidade. Uma companhia a parte. Os detalhes, suas complexidades. O olhar como um resvalo, o passo passageiro.

Estar só é o que me dá sobrevida, psicanalise da alma. As interações com a natureza, plena, externa, beleza do meu ser.

Viajar sozinho restaura déficits do sentido. Lembro que respiro, que sei olhar e apenas olhar. Revejo muito. Mútuo. Quando me dou conta, já esqueci de pensar por um tanto. Olho, enxergo, respiro. Respiro porque preciso de ar, que por sua vez precisa de espaço.

Movimentos de expansão. Tão mais importante que pensar. Do que mais me nutro – momentos. Verdadeiros, pois, coexistimos.

(Marcelo Penteado)

Sentimento Intitulado


2014, Cusco

Todo retorno é uma quebra de encanto.

Entre a expectativa e a memória, existe um ponto de realidade, com outras cores e outros sons. Novos ares, como uma nova dose, resistentes à renovação.

A mesma rua, por ora, é outra rua. A mesma rua, outro sou eu.

Confundimo-nos.

Ela, vaga ao egoísmo da minha lembrança; eu, pleno em sua realidade mais nua. Incompatível ao meu estar. Ao meu olhar de significação. Sinais escorridos pelo tempo, com o tempo. Para outros tempos…

Revisitar um lugar para reviver uma memória – quem nunca?

A experiência, no entanto, muda a consciência. Isso só se percebe depois. Um movimento de avanço. Percebido pelo retorno.

Retornar. Retomar.

Vive-se um esvaziamento de significado da rotina, do passado e do presente. Uma nova perspectiva precisa de espaço para crescer. De credo para existir.

Preciosa como uma semente, a mente de quem retorna. Pelo o olhar da inconsciência, porém, nenhuma viagem oferece regressos.

Como a vida e tantas outras coisas pequenas, a natureza de seu caminho é a continuidade.

(Marcelo Penteado)

Quanto ao quando


2014, Santiago

Quantas vidas já não deixei para trás…

Na não ida de uma viagem, no retorno de um sonho. No regresso imperial da lucidez.

Quantos eus já não morreram, com os segredos que nunca contei, daquelas noites que mal dormi?

E quanto ao quando, para não dizer nunca, disse adeus por sequer tentar.

Quantos fins já insisti, vivendo-os, plenos, em meu pensar. Deixando-os livres ao meu querer.

Tudo o que trouxe da hipótese, a escolha e conclusão. Secreto à todo o resto que se desenrola no vazio.

Embora nunca, o talvez existe.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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