Distante, destoa, à deriva


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2014, Cusco / Foto por @iggyeazy (http://beenseenmet.tumblr.com/)

Novamente, refugiei-me nos lençóis da distância.  Longe da minha realidade mais familiar, insisto em viver sob o céu que não conheço, a fim de esperar por lampejos de reflexão, que em casa já não sei mais ouvir.

Só de não andar preocupado, a objetividade que falta em meu caminhar sobra no discernimento de meus pensamentos. Quando não há pressa nem atraso, qualquer sensação tem o direito de tomar seu tempo.

Livre, acompanha-me pelas ruas o meu diálogo particular. Penso, vejo, penso. Argumentos vão e vem. Como pessoas, que levam adiante de mim algo que deixo com elas, para trás.

Um olhar, uma palavra, uma ilusão não terminada. Conversas desconhecidas sem nenhuma pretensão, a não ser as demandas do momento. Assim, o tempo só passa quando eu o faço passar.

Encontro em cada esquina um motivo para dobrar a rua: nenhum. Viajar é viver um mosaico, onde cada momento que se constrói é o pedaço de um significado, cuja grandeza não se faz entender no instante em que se vive.

(Marcelo Penteado)

Cidade dos sentidos


2012, Istambul

Istambul estava mais fria que as previsões da minha imaginação. Até então, era o lugar mais longe que estava de casa.

Era confortado por uma coragem que só os jovens têm. Ao menos, era isso que me parecia ao olhar por entre o reflexo de suas imparciais janelas. Uma vontade inexplicável de querer conhecer e sentir-se destemido. Nenhuma barreira freia, embora assuste, o desejo de seguir.

Caminhei pelas ruas relaxadamente atento. Buscava, ao máximo, retirar julgamentos do meu olhar. Só queria conhecer. Ver, estar.

Passo a passo, aproximei-me de costumes distantes. Mesmo que voltasse, já não voltaria igual. A culinária, as histórias, o cheiro daquela cidade. Sentia uma espécie de curiosidade, tacanha em seus quereres, receosa em seu pisar.

Istambul não me parece Europa. Também não Ásia. Pelo menos não como eu achava que era. Istambul está mais para Istambul mesmo. Seu próprio mundo, universo e alquimias.

Nenhuma foto poderia dizer o que é aquela cidade. Ela soa incompleta sem seus sons. Ruídos do nada, barulho de tudo. Inaudível à própria coerência do silêncio. Os carros de todas as direções, as pessoas e suas rezas, o caminhar das multidões, as ruas e seus animais.

Uma cidade tecida e amarrada por movimentos. Mesmo quando há uma pausa no olhar, no instante poético de cada segundo, vultos trêmulos convidam a curiosidade da alma à crer que a vida é apenas o que se move.

(Marcelo Penteado)

Memórias escritas, caminhos já feitos


Madrid, 2011

Um outono me disse que outros virão. Quanto ao tempo, tranquilizei-me.

Foi tamanha certeza que me deu segurança para seguir incerto. Perto do longe, por um pouco mais de tempo.

Caminhei por vilas, com becos guardados de silêncio e sombra. Nada que desse mais medo que estar forrado em lãs, guardado do céu. Justamente quando não tive endereço, senti a presença de casa.

Sem nuvens, por terra, pisei sensível para me guiar sem chão. Entre pegadas e memórias, optei pelo qual podia levar comigo.

Vi o verão tirar férias em outro lugar. Sempre um prazer.

Continuei e não só meu cabelo cresceu. Quanto mais calado, mais meus pensamentos me ensinaram a hora exata de falar. Logo descobri que eram raras.

Por falar em memórias, se bem me lembro, reparei mais folhas que pedras no caminho.

Levei meses para entender que a primavera estava em meus olhos.

(Marcelo Penteado)

Sobre viagem


Cappadocia, 2012

 

Até então, era o mais distante que eu havia estado de casa. A sensação era poderosa. Reforçava uma espécie de necessidade de ir além. Estar longe era como me alongar: fazia sentir-me maior, relaxado e íntimo ao prazer.

Muito sedutor dominar o desconforto. Sentir-se bem em ser absolutamente estrangeiro. Talvez a segurança em ser tão desprendido exista na falsa esperança de que todas as raízes permanecem intactas, em casa.

Quando a distância age, no entanto, a própria vida muda os caminhos. Ou os caminhos mudam a vida, pouco importa. A volta, de tão longe, se transforma em uma nova ida. O tempo, o afastamento e as experiências são um convite irreversível à mudança.

Viajar remodela compreensões. Existe a distância que se mede e aquela que se sente. Existe um tempo para nada e um tempo para tudo. Existem algumas verdades que parecem até mentira.

Geralmente, consequente ao retorno, manifesta-se um sentimento inconveniente. A maior distância do mundo experimenta-se, curiosamente, dentro da própria casa. O lugar que era para ser o mais seguro, passa a se tornar desconfortável. Todo o desconsolo de ser estranho em seu próprio ninho.

Como não caber mais.

A sensação é igualmente poderosa. Contudo, oprime. Todo o aprendizado obtido começa a fazer sentido. Lembranças voltam com força. O conhecimento parece ter vida. Por ser vivo, escapa ao controle. Neste momento, fugir passa, então, a ser uma motivação a viajar.

A ideia de partir para se encontrar é tão atraente quanto romântica. Uma cláusula condicional à satisfação plena. Sempre lá, sempre longe. Estar fora para se sentir inteiro. Eis o martírio de muitos que viajam.

Até que, nem mesmo a viagem pode responder algumas perguntas. O prazer é sempre indescritível. Porém, é preciso algo mais.

Um bom viajante também vai para dentro. Ouve seu espírito. Desafia-se a entender que não é o lugar que lhe traz a sensação de liberdade. Compreende o propósito do ir e a interação do estar. Em si,  com resto.

A boa viagem, em realidade, está no encontro da alma com o destino.

 

(Marcelo Penteado)

Pense antes de entrar


Mallorca, 2013

Eu poderia ter feito nada.

Estaria lá, ainda, talvez trilhando caminhos que não merecem a minha pegada. Teria adiado meus medos, ignorado meus sonhos e desposado meu arbítrio. Não teria pedido ajuda, nem teria perdido todas minhas certezas, ao ponto de conviver, por tempos, com o desespero.

Sair da rota de segurança tem seu preço. E como é alto. Crescemos tão habituados a luzes artificiais, que nos esquecemos da importância de iluminar nossa própria passagem.

O medo, a princípio, nos alerta sobre o perigo da escuridão. No entanto, o perigo real não está na escuridão. Está na ausência de luz – o que é diferente.

Tomar consciência desta conjuntura é igualmente arriscado. O chamado para autenticidade implica em dinamitar as correntes mais firmes. Percorrer estradas guiadas pela sua essência é sinônimo de coragem.

Fardo impartilhável.

Muitos te desanimam, inclusive facções próprias de você. O convite à consciência é uma montanha russa de sanidade. Uma sequência de testes surpresa, sem estudo, preparo ou ajuda. Por entre altos e baixos caminha aquele que quer se autoafirmar.

Não é rápido. Não é fácil. Não é bonito. Inclusive, dói muito. No entanto, depois da solidão, além do deserto das reflexões, há um vazio desobstruído – pleno de significados.

Retomada de consciência. É o que acontece quando suas ações são baseadas na sinceridade e no presente.

Responsabilidade de escolha. Trata-se de um convite ao bem-estar. Assumir as rédeas do seu destino. Agir tal qual a respiração, leve e natural.

Perceber que, o excesso de pensamentos, intoxica.

O despertar de si vai contra algumas antigas leis do mundo. Ou melhor, nada contra. O fato é que, quando ouvimos mais a nós mesmos, descobrimos que nossas verdades podem fluir como a correnteza. Naturalmente forte. Firme em seu direcionamento.

Seguir nenhum fluxo, a não ser nosso próprio. A consciência transparente se difere de uma porção de afirmações que estão soltas por aí – espalhadas pelo futuro, pelo passado ou por todas as outras coisas que tentam nos convencer que existem.

Contudo, calma. Calma. Em meio a tantas palavras, ainda resta uma confissão: ainda não sei se sei tudo isso que escrevi ou apenas acredito nisso. O que importa? Na pior das hipóteses, caminho entre a sabedoria e a crença.

 (Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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