Humilde Opinião


2011, Amsterdam

Para quem não hesita em buscar, encontra-se cada vez mais acessível histórias de pessoas que passaram a escolher viajar por uma questão maior que o próprio destino da viagem.

Não é difícil achar, muito menos entender, casos de quem largou tudo para simplesmente sair em busca de algo maior. Reconstroem suas vidas, passam meses na estrada ou somente vão.

Aquele que nunca vai provavelmente acredita que viajar desta forma é uma ideia arriscada. Pode achar que é uma perda de tempo, ancorada por uma má decisão, do qual não há nenhum retorno tangível, além de fotos e presentes.

Nós, entretanto, vemos outro risco – deixar a rotina camuflar o dinamismo natural da vida.

Viajar é um investimento orgânico. Um processo de mudança de consciência. Por definição, envolve muito mais que o aspecto presencial. Quando se sai de onde está, saem também medos, pensamentos e limites.

Abre-se espaço, então, para o enriquecimento cultural. Um arsenal de experiências que servem de subsídio para novas formas de pensar e agir. Princípio de mudanças tanto na esfera pessoal quanto nos campos profissionais.

Geralmente, quem passa a viver desta maneira, costuma concordar que o fato, quando acontece na rua, tem mais verdade que no noticiário. A imperfeição da visão dos olhos, às vezes, tem mais valor que a lente de uma câmera. Ou que, nem de longe, o silêncio das paisagens está retratado nos quadros.

É um câmbio de valores. Uma nova possibilidade de enxergar o que está ao redor. Seja por novos filtros ou além das camadas.

Todavia, há quem siga com medo de encarar mudanças. Sem sequer desconfiar que o medo de perder o que se tem é o que priva de ter mais. A falsa segurança da estabilidade cria uma realidade frágil e camuflada. Tudo que está no contorno, está prestes a transformar.

Nada se isola da mudança.

Há um grande risco ao apostar em raízes, num mundo que os ventos têm forças suficientes para mudar direções.

 (Marcelo Penteado)

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Imagina


Paris, 2013

Imagina se um dia sua sinceridade acorda de mau humor.

Resolve romper este silêncio reprimido que o império da convivência social impõe sobre as suas próprias fronteiras.

Imagina, que no teatro da sua vida, a sua sinceridade cansou de ser a árvore no fundo do palco. Em meio ao espetáculo de palmas forçadas, imagina se ela se cansa e, no refrão da música, resolve abandonar.

Quando a sinceridade chegasse ao camarim, tomaria um susto ao não se enxergar no espelho. Irreconhecível. Estaria ela camuflada, maquiada, com seus movimentos programados. A fantasia que lhe vestia era o cárcere que lhe privara. Eram tantas raízes que sequer podia andar.

Logo a demagogia viria tentar convencê-la a repensar. Aquela conversa morna, tendenciosa e frívola. Argumentos que, de tão enferrujados, infeccionam as vontades mais sinceras como tétano e submetem o arbítrio a uma coerção comportamental.

Agora imagina que sua sinceridade está obstinada. Suponha que ela tenha conseguido resistir e passou a apenas desejar “bom dia” para os verdadeiros bons dias.

Se o dia pudesse falar – imagina – será que ele não agradeceria à sinceridade por ter sido, finalmente, tão decente?

Assim, pouco a pouco, ela ganharia força, confiança. Promoveria discursos inflamados; incitaria as vontades mais sufocadas. Não demoraria muito para que sua sinceridade lutasse, também, por você.

Sua influência e integridade liderariam uma verdadeira cruzada. Ela conduziria uma marcha de libertação e invadiria seu coração com a ideologia das boas verdades, expulsando angústias, desapossando mentiras e alforriando lágrimas.

E se tudo isso acontecesse, tão real quanto agora, não lhe agradeceria a felicidade por tornares tu a mais crível das companhias?

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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