Ensaio sobre a mudança


2015, Uruguai

2015, Uruguai

Para entrar em uma rota de crescimento é preciso estar disposto a desapegar.

Isso significa abrir mão de padrões conhecidos em favor da transformação. Significa desarmar a própria inércia, desconforto e resistência.

Equilibrar-se em movimento.

Definições, quando perdem o vínculo da convicção, abrem espaços sem querer.

Por sua vez, espaços vazios são gentis às mudanças de forma. Assim, um novo olhar. Outro ângulo ou perspectiva. O conhecimento, em sua única essência, é expansivo.

Em algum momento e por (in)consequente razão, nós os direcionamos valores.

Invariavelmente, um novo patamar criará seus próprios mecanismos para se fazer padrão. Nós alimentamos isso. E antes que se diga errado, é meramente natural.

A sombra da recompensa é a segurança. A aventura só é tão atrativa por ser um respiro mais forte que a pausa.

Até para os olhos que não querem ver, a certeza cansa. O novo se permite quando a raiz da mudança emerge na consciência.

(Marcelo Penteado)

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Preguiça Social


2014, Rio de Janeiro

 

De um caderno um tanto manso, inéditos escritos de um velho não tão longe assim, uma lição atemporal que nem mesmos todos séculos poderiam explicar:

 “Um vento cai melhor que uma palavra. Não me venha com essa de solidão. Vivo um momento de preguiça social. Uma espécie de necessidade involuntária de passar mais tempo comigo.

A troco de nada.

Na verdade, não tem origem em nenhum motivo que possa ser consertado por alguém. Nem ninguém. Não há qualquer ligação com mágoas ou relações arranhadas. A razão é positiva, viva, positivista!

Cercar-me de desconhecidos me impossibilita de me conhecer melhor. Conhecidos também não têm ajudado. Fazem-me perguntas que nem mesmo eu sei dizer. Aliás, são como aromas que sigo dentro de mim.

Como o calor da pele caçada, não há deserto que perdoe quem fique parado. A maior penitência da imobilidade é desinteressar os olhos. Partir para a mudança é romper com a realidade presente.

Ausentar-se, portanto.

Minha falta de instrução religiosa, por outro lado, me deixa em dúvida se preguiça social é igualmente um pecado. Ou se pecado mesmo é fazer da vida um ato sem graça. No entanto, ensina melhor meu espírito quando pede silêncio e deixa a própria verdade falar.

A distância rega a vida das relações. Traz à superfície o crescimento, permite ao tempo assinar sua obra. A preguiça, mesmo, não é de viver. É apenas da vontade de estar. Há no isolamento uma vívida intensidade, uma energia permissivamente egoísta, que só entendem os vulcões.”

 (Marcelo Penteado)

Filosofia do “chega”


Madrid, 2011

Não sei exatamente se há um momento chave. Muito menos sei descrever a gota fotografada no flagrante do transbordo. Seu tamanho, densidade ou relevância. A única condição que exige o desencadeamento de uma mudança é o fim da validade de um ato.

Tudo que começa no silêncio encontra uma maneira de conseguir sair.

Cedo ou tarde, eis a hora que não dá mais: a rescisão deixa de ser uma ideia. É necessária uma ruptura.  A começar pelo basta de tudo aquilo que não se suporta mais.

Na esquina do limite não há espaço para fazer retorno. Tem-se apenas o que se permite. Leva-se somente o que cabe.  Andar para frente sem olhar para trás.

Decisões adiadas, já cansadas de esperar. O tormento de sonhos exilados. O futuro também sabe enviar fantasmas. Tantas linhas – em vão tecidas – viraram nós. Ou contra nós.

“Chega!”.

Quando ergue-se o muro do basta, destacam-se, à vista, apenas tudo que tem espaço para crescer. Inegavelmente claro não por ter mais altura, mas pela vitalidade de suas raízes.

A voz do “chega” tem um tom de cansaço. Um pouco mais reticente, pode-se dizer. Aprendeu, controversamente, a importância em valorizar as escolhas francas. Nas apostas da vida com o tempo, raramente duram os blefes.

Nega-se com mais certeza. Escolhe-se, consentido de convicção. Maturidade talvez seja enfrentar o próprio caminho e ir de encontro ao tropeço de suas próprias pedras.

O abraço paterno às consequências. Aceitar – com a consciência de quem pôde decidir.

(Marcelo Penteado)

Sobre viagem


Cappadocia, 2012

 

Até então, era o mais distante que eu havia estado de casa. A sensação era poderosa. Reforçava uma espécie de necessidade de ir além. Estar longe era como me alongar: fazia sentir-me maior, relaxado e íntimo ao prazer.

Muito sedutor dominar o desconforto. Sentir-se bem em ser absolutamente estrangeiro. Talvez a segurança em ser tão desprendido exista na falsa esperança de que todas as raízes permanecem intactas, em casa.

Quando a distância age, no entanto, a própria vida muda os caminhos. Ou os caminhos mudam a vida, pouco importa. A volta, de tão longe, se transforma em uma nova ida. O tempo, o afastamento e as experiências são um convite irreversível à mudança.

Viajar remodela compreensões. Existe a distância que se mede e aquela que se sente. Existe um tempo para nada e um tempo para tudo. Existem algumas verdades que parecem até mentira.

Geralmente, consequente ao retorno, manifesta-se um sentimento inconveniente. A maior distância do mundo experimenta-se, curiosamente, dentro da própria casa. O lugar que era para ser o mais seguro, passa a se tornar desconfortável. Todo o desconsolo de ser estranho em seu próprio ninho.

Como não caber mais.

A sensação é igualmente poderosa. Contudo, oprime. Todo o aprendizado obtido começa a fazer sentido. Lembranças voltam com força. O conhecimento parece ter vida. Por ser vivo, escapa ao controle. Neste momento, fugir passa, então, a ser uma motivação a viajar.

A ideia de partir para se encontrar é tão atraente quanto romântica. Uma cláusula condicional à satisfação plena. Sempre lá, sempre longe. Estar fora para se sentir inteiro. Eis o martírio de muitos que viajam.

Até que, nem mesmo a viagem pode responder algumas perguntas. O prazer é sempre indescritível. Porém, é preciso algo mais.

Um bom viajante também vai para dentro. Ouve seu espírito. Desafia-se a entender que não é o lugar que lhe traz a sensação de liberdade. Compreende o propósito do ir e a interação do estar. Em si,  com resto.

A boa viagem, em realidade, está no encontro da alma com o destino.

 

(Marcelo Penteado)

Pense antes de entrar


Mallorca, 2013

Eu poderia ter feito nada.

Estaria lá, ainda, talvez trilhando caminhos que não merecem a minha pegada. Teria adiado meus medos, ignorado meus sonhos e desposado meu arbítrio. Não teria pedido ajuda, nem teria perdido todas minhas certezas, ao ponto de conviver, por tempos, com o desespero.

Sair da rota de segurança tem seu preço. E como é alto. Crescemos tão habituados a luzes artificiais, que nos esquecemos da importância de iluminar nossa própria passagem.

O medo, a princípio, nos alerta sobre o perigo da escuridão. No entanto, o perigo real não está na escuridão. Está na ausência de luz – o que é diferente.

Tomar consciência desta conjuntura é igualmente arriscado. O chamado para autenticidade implica em dinamitar as correntes mais firmes. Percorrer estradas guiadas pela sua essência é sinônimo de coragem.

Fardo impartilhável.

Muitos te desanimam, inclusive facções próprias de você. O convite à consciência é uma montanha russa de sanidade. Uma sequência de testes surpresa, sem estudo, preparo ou ajuda. Por entre altos e baixos caminha aquele que quer se autoafirmar.

Não é rápido. Não é fácil. Não é bonito. Inclusive, dói muito. No entanto, depois da solidão, além do deserto das reflexões, há um vazio desobstruído – pleno de significados.

Retomada de consciência. É o que acontece quando suas ações são baseadas na sinceridade e no presente.

Responsabilidade de escolha. Trata-se de um convite ao bem-estar. Assumir as rédeas do seu destino. Agir tal qual a respiração, leve e natural.

Perceber que, o excesso de pensamentos, intoxica.

O despertar de si vai contra algumas antigas leis do mundo. Ou melhor, nada contra. O fato é que, quando ouvimos mais a nós mesmos, descobrimos que nossas verdades podem fluir como a correnteza. Naturalmente forte. Firme em seu direcionamento.

Seguir nenhum fluxo, a não ser nosso próprio. A consciência transparente se difere de uma porção de afirmações que estão soltas por aí – espalhadas pelo futuro, pelo passado ou por todas as outras coisas que tentam nos convencer que existem.

Contudo, calma. Calma. Em meio a tantas palavras, ainda resta uma confissão: ainda não sei se sei tudo isso que escrevi ou apenas acredito nisso. O que importa? Na pior das hipóteses, caminho entre a sabedoria e a crença.

 (Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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