Cultura Souvenir


Rio de Janeiro, 2014

2014, Rio de Janeiro

Para quem viaja, é muito comum deparar-se com a questão “como é o povo tal?” ou “como as pessoas agem em determinado país?”.

Infelizmente, é normal ouvir respostas sobre essas perguntas. Há quem use a experiência de ter estado em um lugar para singularizar comportamentos e atitudes.

Reduzir um país, uma cultura e suas pessoas a uma experiência é tão grave equívoco quanto acreditar que o hino representa a totalidade de suas histórias. A generalização possui o mesmo gene do preconceito. Falsas verdades são criadas pela irresponsabilidade de visões reduzidas a categorizações.

Viver uma viagem é exatamente o oposto. É possível livrar-se da cadeia invisível de comportamento coletivo e observar, plenamente, as individualidades em ação – ou reação. A observação, por si, desobstrui as portas que o julgamento teima em fechar.

Sair da rotina, esquecer horários, padrões e etiquetas. Viajar permite negar o óbvio e navegar por entre e além dos estereótipos mais rasos.

Ao compartilhar uma experiência cultural, deveria se prestar o máximo cuidado para não tornar o fato uma verdade, nem doar às opiniões os trajes do indiscutível.

O discurso preguiçoso busca auxílio em jargões. No entanto, é preciso estar ciente que qualquer tradição é egoísta: sua existência depende da insistência em contar as mesmas histórias.

Por mais que a convivência seja, em inúmeras vezes, através de interações com instituições, a essência de qualquer relação está no contato humano.

Países são pessoas. Estados são pessoas. Culturas são pessoas. São elas que importam. Isto é, apesar dos hábitos praticados por grupos, na raiz mais íntima de cada um há a potência inata de fazer existir sua individualidade.

Mesmo com toda semelhança, nenhum entendimento tem poder de verdade.

(Marcelo Penteado)

Manifesto Viajante


Barcelona, 2011

O que eu quero não está na televisão e não há publicidade que possa me entreter – sequer a dou ouvidos.

O que eu quero só se pode sentir em movimento.

Nas idas sem voltas de novos caminhos, no ineditismo de boas caminhadas ou nas janelas que me oferecem vistas cintilantes.

O que quero só se pode sentir no silêncio incomunicável de um pôr do Sol que – posso jurar – não há câmera que o reproduza.

O que eu quero é presenciar a liberdade de me sentir tão solto e perdido, em meio a pessoas que não conheço, paisagens que não estou acostumado e climas que me são estranhos.

O que eu quero é sentir novamente a carência de rigores, que me desconecta de preconceitos e padrões, que me permite ser a versão mais sincera de mim.

O que eu quero é deixar meu olhar curioso.

Sorrir com espontaneidade, sentir minha sobrancelha arquear-se e desembrulhar cada minuto do meu dia como se fossem cartas embaralhadas pelo destino.

O que eu quero só se pode sentir na condição de carona – é quando o que estava rápido desacelera, uma porta se abre e o resto não mais importa.

Compartilhar momentos memoráveis com pessoas de outros países, continentes e realidades. Quando não descobrimos novas aventuras, descobrimos a nós mesmos. Ser diplomata da vida.

O que eu quero só se pode sentir depois de conversar horas com estranhos, beber novas culturas e brindar com novas palavras. Grandes amizades nascem assim. E amores também.

O que eu quero é aprender novas línguas – não para falar, mas para ouvir mais. Mergulhar em novos conhecimentos, sobrevoar novas religiões e pescar novos sentidos que me façam dar, à vida, uma chuva de significados.

O que eu quero…

O que eu quero só se pode sentir depois de percorrer estradas sem nenhum turista, subir montanhas com lendas locais e descobrir que tudo, na verdade, é especialmente único e perfeito. É descobrir que onde poucos chegam, muitos se encontram.

O que eu quero só se pode sentir depois de dormir em diferentes lugares e acordar olhando para tantos outros tetos. Ou às vezes estrelas – desprender-me: a liberdade de não pertencer a nada me permite, potencialmente, pertencer a tudo.

O que eu quero é silêncio.

Um momento presente de paz; e me conhecer. Gritar para o mundo que sou seu filho e escutar meu chamado ecoar, sem barreiras, até perder-se.

O que eu quero é ir mais longe, sentir o vento redesenhar meu rosto e ser contemplado com uma paisagem que me faça tirar os meus óculos escuros.

O que eu quero só se pode sentir quando o coração é a bússola. Das bandeiras que capitaneia minha alma; do sangue de explorador que desvirgina minhas veias – a livre e amaldiçoada necessidade de lograr novos horizontes.

O que eu quero viola preconceitos, visões pequenas e raízes profundas. À qualquer julgamento prevaleço calado. E sigo.

O que eu quero é viajar; mas viajar de verdade, com verdade e por novas verdades. Despir-me de fronteiras e rotas – ser um sopro de vento entre árvores. Tão livre e tão cativante.

O que eu quero, mesmo, é olhar para frente e saber que amanhã estarei lá.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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