Compromisso com a estrada


2013, Berna

2013, Berna

Viajar é movimento. Um caminho, um pensamento. Para fora, para dentro. Um ato de se tornar, enquanto se vive. Muito mais intenso do que a simples existência.

Viajar é ganhar, é perder. Uma sonata de amigos e histórias. Atos novos, sapatos velhos, testemunhos vitalícios de momentos pontuais.

Memórias e sonhos, duetos controversos. Milhares de quilômetros, centenas de batimentos, frequência e distância sob a mesma regência.

Saudades… respira. Viajar é tempo, é verbo, é um fato. Um curso que segue, sigo, siga. Doravante um rio, que nada.

A força que nasce até explodir. Bela, plena, passional. Vem de dentro, quente feito fogo, fugaz como tosse.

Passa um tempo, tantas luas e até um vento. Natural mesmo, no entanto, é a vontade que renasce. Resguarda-se a convicção cega, incondicional, o compromisso com a estrada. Viajar é semente – cai lenta na mente e cria raízes na alma.

 (Marcelo Penteado)

Anúncios

Primeira vez


2014, Rio de Janeiro

A primeira vez que saí para viajar, sequer imaginei o passo que estava dando. Para mim, parecia um processo ditado por previsões. A mala era pensada a partir das roupas já decididas para cada dia e ocasião. Os dias eram resumidos a roteiros, com rigidez de horário e passeios programados. Sem esquecer do aval, até mesmo, da previsão do tempo.

Se alguém me falasse da magia, não chegaria nem perto de acreditar. Sensações não gostam mesmo de palavras. Sequer desconfiava que a distância era o impulso da liberdade.

Descobri os prazeres de viajar, apenas, quando refletidos em mim. Um latente enriquecimento baseado num encontro de vidas – especialmente daquelas que, se não fosse a viagem, nunca se cruzariam.

Com o tempo, ele mesmo me convenceu a trocar a mala por um mochilão. Aonde ir se tornou mais importante que saber onde ficar. O destino cedeu espaço para o trajeto. O caminho reinventou a linguagem dos significados, além da condição de existência entre dois pontos.

Passei a prestar mais atenção nas pessoas que nas estátuas. Foi quando aprendi a me envolver, de fato, com a importância de uma história. Meus critérios de avaliação passaram a considerar mais os sorrisos que as estrelas de fachada.

Assim, entre famílias e hotéis, preferi tornar-me hóspede por convite.

Viajar sozinho, definitivamente, foi a melhor maneira de descobrir que o melhor parceiro de viagem encontra-se dentro de si. Além da própria evolução, há momentos de pausa e silêncio, herdeiros da verdadeira liberdade.

Quando só, o horário e o destino deixam de pertencer ao consenso. O compromisso segue marcado com o acaso. Segundo o manual dos viajantes, a correnteza prevalece quando não há bordas nem mãos para segurar. Isso, também, me contou uma nuvem.

Uma mochila nas costas, somado a um lugar desconhecido, parece aguçar a sensibilidade. É como se houvesse mais poesia no olhar. O viajante resgata a beleza que a rotina enxuga. Como a chuva que, mediante seu aroma, embeleza o tempo livre das tardes.

Viajar é perceber a sutileza do que tem tudo para passar despercebido.

Quando não há ninguém para conversar, aliás, aprende-se a falar com o silêncio. Na prosa dos pensamentos ou na inspiração das reflexões, torna-se possível descobrir o caminho da própria paz.

Viajar é um constante movimento – por essência, bastante controverso – que se equilibra no colo da pausa. Pequenas ou grandes, a realidade se faz presente. Pelo concreto ou nos seios do abstrato, o dueto do agora. Entre todos os caminhos e as escolhas feitas, experiências e aprendizados são tão subjetivos como idas e vindas. No meio tempo de qualquer momento, com a permissão do fuso, viajar é a chance de nascer de novo.

 (Marcelo Penteado)

Memórias escritas, caminhos já feitos


Madrid, 2011

Um outono me disse que outros virão. Quanto ao tempo, tranquilizei-me.

Foi tamanha certeza que me deu segurança para seguir incerto. Perto do longe, por um pouco mais de tempo.

Caminhei por vilas, com becos guardados de silêncio e sombra. Nada que desse mais medo que estar forrado em lãs, guardado do céu. Justamente quando não tive endereço, senti a presença de casa.

Sem nuvens, por terra, pisei sensível para me guiar sem chão. Entre pegadas e memórias, optei pelo qual podia levar comigo.

Vi o verão tirar férias em outro lugar. Sempre um prazer.

Continuei e não só meu cabelo cresceu. Quanto mais calado, mais meus pensamentos me ensinaram a hora exata de falar. Logo descobri que eram raras.

Por falar em memórias, se bem me lembro, reparei mais folhas que pedras no caminho.

Levei meses para entender que a primavera estava em meus olhos.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
outubro 2017
S T Q Q S S D
« dez    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  
%d blogueiros gostam disto: