Retrato de uma crônica recente


2015, Uruguai

2015, Uruguai

Conta a história que a felicidade concedeu um sopro, enquanto seguia perseguida pelos famintos desejos do mundo.

Disse ela, em tom de socorro, que não há resposta órfã de sinônimos.

Apelou!

Ora, quando ao deleite da existência traduziu-se vida, em outros tons igualmente se aprendeu a pluralizar quaisquer significado.

Porém, tão logo todos os olhos se cegam à felicidade, única e sublime, pobre dos sentimentos que também com ela percorrem os mesmos campos: suas trilhas desmerecem o desuso.

Carente o mais nobre dos atalhos: a curiosidade. O desejo intenso de experimentar a vida. A chama que se move não para cativar, senão o oposto. Incita quando até a coragem receia. A curiosidade é a releitura mais astuta da adrenalina que conecta o desejo à conquista.

(Talvez seja uma visão das mais privilegiadas ou um descompasso precioso, quando entre encantar-se ou alcançar, se manifestam descomplexamente, feito poemas de Manoel de Barros.).

Mais um respiro – Se no alcance da felicidade, justo ao ato de sua captura, poucas palavras escapulissem pelo seu ar de presa, ditos sem fio feito cânticos jurariam a validade do relato: “há mais ilusões que plenitude em mim; nua, sou a soma de muito que foi esquecido para injustamente polir-me só”.

(Marcelo Penteado)

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Velhas verdades


Madrid 2013

A vida tem uma capacidade nada delicada de nos dar verdadeiras lições. Por mais que ignoremos alguns sinais ou silenciamos algumas vozes internas, o momento sempre chega.

A mudança é inevitável. O medo não pode cegar, nem a insegurança tornar-se dominante. Na verdade, é preciso ter muita força para seguir em frente, mesmo quando a mão não tateia os próximos metros do caminho.

Às vezes, inclusive, é melhor calar a insistência das esperanças e fomentar novos sonhos. Abrir espaços. Destampar ao invés de tentar prender. Suportar as oscilações, enfrentar as incertezas e, então, ao seu tempo, moldar sua própria afirmação.

Dominar as artimanhas do desespero. Dormir com a desilusão e acordar vacinado. Olhar para trás, e superar. Reconhecer o chamado da mudança e deixar para trás o que não tem mais sentido, independente do seu valor.

Continuar apesar de tudo. Não por orgulho, nem desapreço ou por indiferença. Por nada. O único motivo para ir é não ficar. A redenção do basta.

Por entre os altos e baixos existem silêncios nada doces de serem experimentados. Manifestos de impotência, verdades tristes. Quando a dor parece ser insuportável, a vida faz questão de nos provar que temos uma força infinita. Podemos nos encarar até o final, mas seremos nós que apagaremos a luz.

Do convívio com a dor nasce o forte. Com a fragilidade que comove o que parecia ser invencível. A superação que reverte a descrença com a sabedoria que só o tempo sabe ensinar.

Podemos não saber o que a vida nos trará amanhã, é sempre uma surpresa. Podemos também não saber como lidar com tantas coisas de ontem, é sempre um desafio.

Podemos tudo, inclusive, renovar.

Deixar novos motivos tirarem os sorrisos para dançar; permitir que a curiosidade suspeite de novos ares; reaprender que, entre um tchau e o novo, há um momento bem-vindo à releitura do que é a felicidade.

(Marcelo Penteado)

Eu curto, tu curtes, a vida encurta


Palma de Mallorca, 2013

Ou não percebi que a vida trocou suas roupas ou eu ando meio offlline demais.

Meus valores entraram em coma e os tempos se desenham confusos. Costumava acreditar que compartilhar significava doar. No meu viver, o que eu curtia pouco tinha a ver com o que aos outros eu demostrava.

Então algo aconteceu.

Publicar tornou-se um divisor de águas. Um selo que autentica e desqualifica a própria vida. Uma projeção irreal de doces mentiras. A privacidade virou clichê.

Parece que a vida ganhou novos planos. A felicidade agora não se contenta mais com o momento. Ela é vaidosa, precisa ser vista por outros olhos, comentadas por outras bocas. Quer expandir-se a cada curtida. O que antes era fato, hoje é foto.

Temo que desaprendi algumas velhas maneiras.

Em tempos de exposição, o sorriso é pop. Reflete o flash enquanto a pose não perde tempo. Somos a versão editada e replicada de nós mesmos. Nos aplicamos filtros e nos definimos em poucas palavras. Micro caracteres ansiando por macro exposição.

Amizades agora se solicitam. E, assim, se aceitam! Pessoas reduzem-se a nomes; contatos reduzem-se a cliques; relacionamentos através de conexões invisíveis. Eu sigo, tu segues – onde vamos parar?

Agora posso saber de tudo. Por onde anda, com quem estava e quando foi. O massacre da curiosidade esvazia o valor das perguntas. Se o olho passa a fiscalizar tantos fatos, para que vai olhar em outros olhos?

E nada para.

A angústia é em real time porque sempre há alguém fazendo questão de vociferar si mesmo. A vida virou uma feira e cada qual com seu stand propagando seus eventos. Um leilão de felicidade medido por votos de inveja branca.

Pior, nossa biografia em constante construção é continuamente avaliada. Podemos ser aprovados ou menos acolhidos. Nosso sentimento de pertencimento passa a ser guiado pela repercussão das nossas difusões virtuais. Uma “tabloidização” das mais vulgares da vida regular.

E assim a vida tem seguido. Reduzida às curtidas. Encurtando-se. Roteirizando-se por caminhos de vidro. Uma transparência maquiada, explanações dissimuladas e inconvenientes.

Neste reino de aparências o ego e a vaidade se travestem de alegria.

A felicidade tornou-se um espetáculo, que tem prazer em se exibir. Um teatro vago e lamentável. Insuportável. Mas que vivência mais tangível!

Ou, de repente, a vida realmente trocou suas medidas ou, de fato, ando offline demais.

(Marcelo Penteado)

Entre homens e meninos


Paris, 2013

Um dia tive um sonho de menino.

Aquela sequência de acontecimentos nada cinzas e cheios de vida. Um momento que minha única atividade era ser feliz. Que meus problemas eram logo superados e que eu era bobo suficiente para não dá-los tanta atenção.

Nesse dia, me lembro, fui perguntado sobre o que eu queria ser quando crescer. Não soube responder, pois viver já me bastava. Como eu seria capaz de responder isso se era tão mais importante decidir se eu iria jogar vídeo game ou assistir o desenho animado que acabara de começar?

Um doce sonho de menino.

Intrigava-me como contas que chegavam pelo correio causavam mal-estar na “gente grande”. Um quarto escuro me parecia tão mais amedrontador que este pequeno pedaço de papel.

Quando meu maior medo era do escuro, me confortava saber que meu maior desafio fora conseguir andar. Eu, que já havia ficado de pé sozinho, agora criava a minha própria distância do horizonte. Mas o escuro ainda dava medo mesmo assim.

Naquele dia, meu amanhã só aparecia mesmo depois do hoje. Era sincero comigo e com todos ao meu redor. Lembro-me como eu era estranho à algumas coisas novas que a “gente grande” fazia.

Mas logo deixava de pensar e ia me divertir.

Hoje, confuso, não sei dizer se sonhei com a vida que tinha ou apenas lembrei do sonho que eu um dia vivi.

Só sei que, com o passar do tempo, aquela vida do menino mais me parecia um sonho mesmo. Tão simples e tão distante. Com uma ingênua sabedoria, a felicidade era o caminho e a razão primária de tudo.

Das camuflagens que hoje visto, dos problemas que hoje enxergo e do amanha que hoje vivo, fiz daquela vida apenas um sonho e vi o menino tornar-se o homem que não entendia.

Hoje não tenho mais medo do escuro. Pior, tenho medo do que é cinza.

Quem diria que, no final das contas, entre aquele menino e eu, ele vivia enquanto eu sonhava.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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