De repente


2014, Cusco

De repente e, dia após dia, ele queria ser grande. A vontade de crescer, o descontentamento com a idade. O tamanho não compartia tamanhos anseios. Os desejos de ser eram maiores do que se era. Um outono por ano ainda parecia insuficiente. Queria mais, e cada vez mais rápido.

Como se o tempo não passasse o suficiente.

Queria pular o que não havia nem visto. Lembrar o que não viu ou até mesmo ser sem sequer ter sido. Queria ter sentido, sem antes sentir. Sem enquanto, nem durante, nem nunca.

Criança deixou de ser quando ainda era. Um dia, grande queria ser em pensamentos. Logo eram desejos transformados em palavras. Cresceu despercebendo a beleza em ser exatamente o que se era.

Ao olhar para o futuro, as vontades e os desejos, não o deixavam sentir os problemas que só o presente é capaz de oferecer. As brincadeiras viviam a realidade pelo ombro da fantasia. Como era bom ser gente grande, quando ainda não se se era.

Cresceu, de fato. Ora grande, quando só, lembrou de anseios como se pensa em besteiras. Ao olhar para as paredes, fotos soltas em histórias antigas. Parte do que esqueceu-se de esquecer por inteiro.

Eram lembranças querendo atenção. Nada que o tempo não leve. Ele sempre levou.

( Marcelo Penteado )

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Do que levamos desta vida


Berna, 2013

Da minha infância não levo nada material.

Se as roupas já não me vestem mais, os velhos brinquedos tampouco me servem. Daquelas figurinhas que eu colecionava e dos tantos álbuns que eu quase completei, nenhum deles tem mais espaço em minhas atuais coleções. Daquele tempo, trago comigo uma porção de risadas e cicatrizes de uns velhos machucados.

Lembro-me, também, de amigos que não vejo desde aquela época, cada rosto inocentemente travesso. Chego a rir sozinho das tantas descobertas e aventuras que nos metíamos. Por onde será que eles andam agora…

Da minha adolescência, creio, também não levo nada físico.

Sumi com aqueles CDs e nunca mais vi o pôster daquela banda que nem é mais a minha favorita. Até minha memória deixou de lado trechos seletos de velhas canções. Perdi o quadro que fiz com o ingresso, mas carrego comigo aquele show – como poderia esquecê-lo – talvez tenha sido a primeira vez em minha vida que me senti independente.

Já não sei mais onde está o cordão que ganhei da minha primeira namorada. Daquele dia, lembro-me apenas da marca que fizemos na árvore com as iniciais dos nossos nomes. Aliás, lembro-me de tantos momentos que jurávamos ser eternos. De todos os presentes que trocamos, hoje levo comigo apenas boas histórias e experiências.

Da adolescência carrego com carinho as minhas primeiras viagens, as primeiras bebedeiras, os momentos compartilhados com aqueles amigos que, quem diria, são meus amigos até hoje.

Na verdade, vou me contrariar. Tenho lembranças físicas sim. Às vezes, inclusive, recorro às fotos que ficam lá em cima do armário. Perco horas naquela gaveta empoeirada, e encontro em cada recordação um atalho para reaquecer minha vida. Não chego a voltar no tempo, mas nem precisaria. Dou àquela velha experiência mais um dia de vida, faço a prolongar-se.

E talvez isso queira dizer algo: de repente, entre o preço e a finitude do que é material, ou entre as inúmeras ilusões que nos entretêm, o que verdadeiramente importa desta vida está no valor e na eternidade das boas experiências.

Hoje, cada vez mais, busco entender e quantificar o valor de cada momento, de cada sorriso e de cada escolha. Se prestigio boas experiências, automaticamente fabrico boas memórias. E é isso que espero levar; este é o verdadeiro fardo de nossa riqueza; pois, do que levo do meu passado, nada físico levamos desta vida.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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