Copa: o que se fala, ouve e não vê


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2014, Rio de Janeiro / Foto por @3zecamisas (http://www.3ze.com.br/)

Pois é, vai ter Copa. Igual, sobrarão manifestações. Gritos de sobra: nos estádios e fora deles. Bandeiras ao alto, sonhos ao chão. Marchas, chutes e a violência permissiva que a todos orgulha, enquanto encanta: salve o hino nacional. A multidão se une por uma razão maior e a superfície da realidade parece até outra. A diferença que se vê nas ruas, no entanto, já está prevista na programação.

O show está armado e a plateia sedenta para participar. Os confrontos já têm dia e hora marcada. Tanto para os que são prós, quanto os que são contra – revelai-vos – ambos precisam do mesmo evento para poder existir. De apenas pessoas precisa o espetáculo. Qualquer espetáculo.

A Copa em si não é um erro. Ela foi um fruto mal colhido, mal planejado, um alimento de grife para uma despensa vazia. Algo absolutamente fora de época e contexto, um luxo desnecessário, que apenas os que fingem não passar fome se dão o direito de cometer.

Aos que gritam contra a Copa, porém, eis um convite a pensar: à face de todo problema que se enfrenta, é preciso aprender a enxergar que existe um processo de gestação anterior. Se a reação tornou-se a única alternativa, significa que a prevenção falhou. Enquanto hoje apresentam-se tempos de inúmeras metáforas, logo vê-se a tradicional dificuldade de interpretação.

Consequente ao primeiro pingo de consciência social, um velho lema costuma cair bem: “a união faz a força”. No entanto, já cansou-se de escutar a praça e a história. Não há nenhuma solução que se inicie em forças exteriores ao ser – seja de caráter político, religioso ou social. Se não partir de cada um, não partirá de todos.

As manifestações que se desenham têm a cara de uma inconfundível parte da sociedade brasileira. A marcha dos críticos, embora coberta de razão, depredou, antes de tudo, seu próprio espelho. Reclamar do que está errado sempre foi e sempre será mais cômodo do que comprometer-se a mudar.

Criticar a Copa, demonizar a Fifa e pôr a culpa no Brasil é uma maneira infrutífera de demonstrar um posicionamento e consciência política. Enquanto a responsabilidade não for associada às pessoas, os contratos seguirão governando e o caráter impessoal das decisões manterá neutro todo o carrossel social. Quando a responsabilidade é associada a terceiros, reclamar mudanças é, no mínimo, incoerente.

Difícil discordar, no entanto, que o momento oferece uma oportunidade de transformações significativas. Convenhamos, ele sempre oferece. A mudança é igualmente um processo evolutivo, à base de erros e aprendizados. A esperança reside no desenvolvimento da consciência individual, social e, principalmente, coletiva.

Agora, portanto, que o gigante acabou de acordar, ainda tem todo um dia pela frente antes de dormir em paz consigo. Se com cabeça baixa ou orgulhoso da luta, vitorioso é quem supera a si mesmo. Em quatro anos, haverá outra Copa, e lá estará nossa pátria, bandeira e hino nacional. Assim é o calendário e não é isso que precisa mudar.

Porém, aqui, ao nosso alcance, o que estará fazendo cada um por seu próprio país?

(Marcelo Penteado)

20 de Junho


Rio de Janeiro, 2013

Me chamaram pra rua e eu fui. Manifestei minha curiosidade em simplesmente presenciar um movimento urbano com vida própria.

Mergulhei entre diferentes grupos de pessoas, famílias e desconhecidos, que tinham suas próprias motivações para estar ali.

Testemunhei, impressionado, uma massa reativa, com sentimento coletivo e inexplicável – de patriotismo, indignação e talvez até ressentimentos.

Foi realmente um episódio muito bonito.

Saí de lá, no entanto, com medo. Não das bombas ou do caos. Medo da frustração. De toda a expectativa criada em cima de mudanças, de um certo basta ou de determinado fim.

Medo dos que terceirizam a mudança. Daqueles que estavam ao meu lado apontando o dedo para tudo o que está errado. Destes mesmos que me apontam o mesmo dedo, no dia seguinte, para me xingar no trânsito ou na fila do banco.

Meu medo está no romantismo. Do “gigante que acordou”; da “revolução”; ou das nomeações das primaveras. De uma manifestação narcisista.

Não me entenda errado – minha crítica não está na ida às ruas. Está na volta. Como cada um volta após protestar, gritar e exigir mudanças? Como cada um volta ao seu dia a dia após lutar contra a corrupção?

Uma verdadeira revolução não se concebe nos decibéis de gritos guardados ou nas palavras carregadas de cartazes. Sua vitória está no respeito ao sinal de trânsito, ao pedestre, ao desconhecido na fila da lanchonete, na disciplina diária de boas práticas.

E essas ações, meu amigo, não são televisionadas.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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