Caminho de volta


2015, Rio de Janeiro

2015, Rio de Janeiro

Ele pensou.

Subverteu o tédio dos longos minutos em um retorno para casa. Mas quem disse que a mente acompanhava-o?

Voava longe, deixando o corpo olhando para o nada. Olhando pra cima, com o pensamento cravado no ar.

Há muito já não via isso. Ao seu redor, absolutamente todos entretinham-se por menores janelas, em seus excessos de opções.

Já a dele, era da alma. Dava para ver. Admirável!

Reflexões verdadeiras de uma conversa com si mesmo. “Tanta coisa pra te falar…” suponho, “como anda você, rapaz?”.

Foi quando seus cabelos, já brancos de tantos tempo, pareceram brilhar ainda mais.

E, assim, seguiram. Apesar de todas as distrações e alterações de ambiente.

Imagino que não se viam há muito tempo.

(Marcelo Penteado)
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Movimento de Leveza


2015, São Paulo

2015, São Paulo

Muito do que passa pela minha cabeça se esvai sem qualquer recordação, salvo, a exceção de meu semblante.

O matutar pela vida via as ementas do pensamento em muito provoca somente a crescença do desentendimento.

Do alto de onde não estou, a percepção desses movimentos terceiros pouco complementam o que mais importa: sentir-se bem.

Desde então, desentendo. Quanto mais, melhor! Deixo passar os sentidos que fogem ao meu alcance. Respiro, pois, respirar, definitivamente, é a resposta mais apropriada a inumeráveis perguntas que nos sobram dessa vida.

Dos muitos caminhos que já passei, poucos trouxeram tanto conforto quanto acompanhar o percorrer do ar em meu corpo. Melhora até o captar da visão – percebi! – meio a alívios, em concordância com minha mente.

Aos poucos, sobrou para o resto do corpo – e bom que foi gradativo, pois todo instante nasce para merecer.

(Marcelo Penteado)

De repente


2014, Cusco

De repente e, dia após dia, ele queria ser grande. A vontade de crescer, o descontentamento com a idade. O tamanho não compartia tamanhos anseios. Os desejos de ser eram maiores do que se era. Um outono por ano ainda parecia insuficiente. Queria mais, e cada vez mais rápido.

Como se o tempo não passasse o suficiente.

Queria pular o que não havia nem visto. Lembrar o que não viu ou até mesmo ser sem sequer ter sido. Queria ter sentido, sem antes sentir. Sem enquanto, nem durante, nem nunca.

Criança deixou de ser quando ainda era. Um dia, grande queria ser em pensamentos. Logo eram desejos transformados em palavras. Cresceu despercebendo a beleza em ser exatamente o que se era.

Ao olhar para o futuro, as vontades e os desejos, não o deixavam sentir os problemas que só o presente é capaz de oferecer. As brincadeiras viviam a realidade pelo ombro da fantasia. Como era bom ser gente grande, quando ainda não se se era.

Cresceu, de fato. Ora grande, quando só, lembrou de anseios como se pensa em besteiras. Ao olhar para as paredes, fotos soltas em histórias antigas. Parte do que esqueceu-se de esquecer por inteiro.

Eram lembranças querendo atenção. Nada que o tempo não leve. Ele sempre levou.

( Marcelo Penteado )

Pense antes de entrar


Mallorca, 2013

Eu poderia ter feito nada.

Estaria lá, ainda, talvez trilhando caminhos que não merecem a minha pegada. Teria adiado meus medos, ignorado meus sonhos e desposado meu arbítrio. Não teria pedido ajuda, nem teria perdido todas minhas certezas, ao ponto de conviver, por tempos, com o desespero.

Sair da rota de segurança tem seu preço. E como é alto. Crescemos tão habituados a luzes artificiais, que nos esquecemos da importância de iluminar nossa própria passagem.

O medo, a princípio, nos alerta sobre o perigo da escuridão. No entanto, o perigo real não está na escuridão. Está na ausência de luz – o que é diferente.

Tomar consciência desta conjuntura é igualmente arriscado. O chamado para autenticidade implica em dinamitar as correntes mais firmes. Percorrer estradas guiadas pela sua essência é sinônimo de coragem.

Fardo impartilhável.

Muitos te desanimam, inclusive facções próprias de você. O convite à consciência é uma montanha russa de sanidade. Uma sequência de testes surpresa, sem estudo, preparo ou ajuda. Por entre altos e baixos caminha aquele que quer se autoafirmar.

Não é rápido. Não é fácil. Não é bonito. Inclusive, dói muito. No entanto, depois da solidão, além do deserto das reflexões, há um vazio desobstruído – pleno de significados.

Retomada de consciência. É o que acontece quando suas ações são baseadas na sinceridade e no presente.

Responsabilidade de escolha. Trata-se de um convite ao bem-estar. Assumir as rédeas do seu destino. Agir tal qual a respiração, leve e natural.

Perceber que, o excesso de pensamentos, intoxica.

O despertar de si vai contra algumas antigas leis do mundo. Ou melhor, nada contra. O fato é que, quando ouvimos mais a nós mesmos, descobrimos que nossas verdades podem fluir como a correnteza. Naturalmente forte. Firme em seu direcionamento.

Seguir nenhum fluxo, a não ser nosso próprio. A consciência transparente se difere de uma porção de afirmações que estão soltas por aí – espalhadas pelo futuro, pelo passado ou por todas as outras coisas que tentam nos convencer que existem.

Contudo, calma. Calma. Em meio a tantas palavras, ainda resta uma confissão: ainda não sei se sei tudo isso que escrevi ou apenas acredito nisso. O que importa? Na pior das hipóteses, caminho entre a sabedoria e a crença.

 (Marcelo Penteado)

Se essa página


Rio de Janeiro, 2013

Se essa página em branco fosse minha vida, seria difícil não acreditar em liberdade. Ora, se assim fosse, como se cada palavra escrita representasse um suspiro de viver, ou o destino está atrasado ou eu realmente sou o autor da minha própria história.

Ainda assim pensando, com simplicidade se apresentariam algumas verdades: não é que cada palavra escolhida faria total diferença? Quando a linha acaba e o espaço é preenchido, todavia ainda há novos espaços em branco.

Não seria melhor continuar ao invés de tentar reescrever?

Então cada fase seria um novo parágrafo. Insistir ou mudar de assunto seria uma escolha absolutamente minha. Enredo, tema, personagens. Assim decidiria pelo tamanho ou onde pôr vírgulas. Até entre a dúvida por perguntas ou afirmações há um momento para pontos finais.

Poderia falar de amor, descrença ou política. Que farei eu deste texto? Não é que a escolha é mesmo minha?

Cedo ou tarde seria preciso encontrar harmonia. Isto é, se esta página fosse mesmo minha vida, acabei de chegar à metade do caminho e nada de ninguém me ajudar. Quanta responsabilidade!

Agora, ciente, poderia deixar a confusão para trás. Trataria de priorizar os bons pensamentos, estes sim selecionam as melhores palavras. Criam as melhores histórias. Seria verdadeiro em minha trama, sincero em meu roteiro e autêntico em minha mensagem. Afinal, a história é minha.

Largaria tudo e me entregaria à poesia. Entre a vida e a ficção, aposto que ambas são sinônimos de criação. Assim, criaria. Por cada novo espaço, novos motivos e novas orações. Leve e fluído.

Se essa metáfora fosse uma semente e encontrasse ambientes férteis, não ficaria mais natural o desabrochar de velhas vidas? Páginas seriam escritas com mais significância e a futuridade dos espaços em branco seria respeitada como ela merece – impávida; infinita.

Mas se toda esta página, que já não está mais em branco, fosse apenas uma página e não uma metáfora sobre a vida, que opção teria senão esquecer este texto, partir para a próxima e, virar a página?

 (Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
novembro 2017
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