Cidade dos sentidos


2012, Istambul

Istambul estava mais fria que as previsões da minha imaginação. Até então, era o lugar mais longe que estava de casa.

Era confortado por uma coragem que só os jovens têm. Ao menos, era isso que me parecia ao olhar por entre o reflexo de suas imparciais janelas. Uma vontade inexplicável de querer conhecer e sentir-se destemido. Nenhuma barreira freia, embora assuste, o desejo de seguir.

Caminhei pelas ruas relaxadamente atento. Buscava, ao máximo, retirar julgamentos do meu olhar. Só queria conhecer. Ver, estar.

Passo a passo, aproximei-me de costumes distantes. Mesmo que voltasse, já não voltaria igual. A culinária, as histórias, o cheiro daquela cidade. Sentia uma espécie de curiosidade, tacanha em seus quereres, receosa em seu pisar.

Istambul não me parece Europa. Também não Ásia. Pelo menos não como eu achava que era. Istambul está mais para Istambul mesmo. Seu próprio mundo, universo e alquimias.

Nenhuma foto poderia dizer o que é aquela cidade. Ela soa incompleta sem seus sons. Ruídos do nada, barulho de tudo. Inaudível à própria coerência do silêncio. Os carros de todas as direções, as pessoas e suas rezas, o caminhar das multidões, as ruas e seus animais.

Uma cidade tecida e amarrada por movimentos. Mesmo quando há uma pausa no olhar, no instante poético de cada segundo, vultos trêmulos convidam a curiosidade da alma à crer que a vida é apenas o que se move.

(Marcelo Penteado)

Cultura Souvenir


Rio de Janeiro, 2014

2014, Rio de Janeiro

Para quem viaja, é muito comum deparar-se com a questão “como é o povo tal?” ou “como as pessoas agem em determinado país?”.

Infelizmente, é normal ouvir respostas sobre essas perguntas. Há quem use a experiência de ter estado em um lugar para singularizar comportamentos e atitudes.

Reduzir um país, uma cultura e suas pessoas a uma experiência é tão grave equívoco quanto acreditar que o hino representa a totalidade de suas histórias. A generalização possui o mesmo gene do preconceito. Falsas verdades são criadas pela irresponsabilidade de visões reduzidas a categorizações.

Viver uma viagem é exatamente o oposto. É possível livrar-se da cadeia invisível de comportamento coletivo e observar, plenamente, as individualidades em ação – ou reação. A observação, por si, desobstrui as portas que o julgamento teima em fechar.

Sair da rotina, esquecer horários, padrões e etiquetas. Viajar permite negar o óbvio e navegar por entre e além dos estereótipos mais rasos.

Ao compartilhar uma experiência cultural, deveria se prestar o máximo cuidado para não tornar o fato uma verdade, nem doar às opiniões os trajes do indiscutível.

O discurso preguiçoso busca auxílio em jargões. No entanto, é preciso estar ciente que qualquer tradição é egoísta: sua existência depende da insistência em contar as mesmas histórias.

Por mais que a convivência seja, em inúmeras vezes, através de interações com instituições, a essência de qualquer relação está no contato humano.

Países são pessoas. Estados são pessoas. Culturas são pessoas. São elas que importam. Isto é, apesar dos hábitos praticados por grupos, na raiz mais íntima de cada um há a potência inata de fazer existir sua individualidade.

Mesmo com toda semelhança, nenhum entendimento tem poder de verdade.

(Marcelo Penteado)

Primeira vez


2014, Rio de Janeiro

A primeira vez que saí para viajar, sequer imaginei o passo que estava dando. Para mim, parecia um processo ditado por previsões. A mala era pensada a partir das roupas já decididas para cada dia e ocasião. Os dias eram resumidos a roteiros, com rigidez de horário e passeios programados. Sem esquecer do aval, até mesmo, da previsão do tempo.

Se alguém me falasse da magia, não chegaria nem perto de acreditar. Sensações não gostam mesmo de palavras. Sequer desconfiava que a distância era o impulso da liberdade.

Descobri os prazeres de viajar, apenas, quando refletidos em mim. Um latente enriquecimento baseado num encontro de vidas – especialmente daquelas que, se não fosse a viagem, nunca se cruzariam.

Com o tempo, ele mesmo me convenceu a trocar a mala por um mochilão. Aonde ir se tornou mais importante que saber onde ficar. O destino cedeu espaço para o trajeto. O caminho reinventou a linguagem dos significados, além da condição de existência entre dois pontos.

Passei a prestar mais atenção nas pessoas que nas estátuas. Foi quando aprendi a me envolver, de fato, com a importância de uma história. Meus critérios de avaliação passaram a considerar mais os sorrisos que as estrelas de fachada.

Assim, entre famílias e hotéis, preferi tornar-me hóspede por convite.

Viajar sozinho, definitivamente, foi a melhor maneira de descobrir que o melhor parceiro de viagem encontra-se dentro de si. Além da própria evolução, há momentos de pausa e silêncio, herdeiros da verdadeira liberdade.

Quando só, o horário e o destino deixam de pertencer ao consenso. O compromisso segue marcado com o acaso. Segundo o manual dos viajantes, a correnteza prevalece quando não há bordas nem mãos para segurar. Isso, também, me contou uma nuvem.

Uma mochila nas costas, somado a um lugar desconhecido, parece aguçar a sensibilidade. É como se houvesse mais poesia no olhar. O viajante resgata a beleza que a rotina enxuga. Como a chuva que, mediante seu aroma, embeleza o tempo livre das tardes.

Viajar é perceber a sutileza do que tem tudo para passar despercebido.

Quando não há ninguém para conversar, aliás, aprende-se a falar com o silêncio. Na prosa dos pensamentos ou na inspiração das reflexões, torna-se possível descobrir o caminho da própria paz.

Viajar é um constante movimento – por essência, bastante controverso – que se equilibra no colo da pausa. Pequenas ou grandes, a realidade se faz presente. Pelo concreto ou nos seios do abstrato, o dueto do agora. Entre todos os caminhos e as escolhas feitas, experiências e aprendizados são tão subjetivos como idas e vindas. No meio tempo de qualquer momento, com a permissão do fuso, viajar é a chance de nascer de novo.

 (Marcelo Penteado)

Memórias escritas, caminhos já feitos


Madrid, 2011

Um outono me disse que outros virão. Quanto ao tempo, tranquilizei-me.

Foi tamanha certeza que me deu segurança para seguir incerto. Perto do longe, por um pouco mais de tempo.

Caminhei por vilas, com becos guardados de silêncio e sombra. Nada que desse mais medo que estar forrado em lãs, guardado do céu. Justamente quando não tive endereço, senti a presença de casa.

Sem nuvens, por terra, pisei sensível para me guiar sem chão. Entre pegadas e memórias, optei pelo qual podia levar comigo.

Vi o verão tirar férias em outro lugar. Sempre um prazer.

Continuei e não só meu cabelo cresceu. Quanto mais calado, mais meus pensamentos me ensinaram a hora exata de falar. Logo descobri que eram raras.

Por falar em memórias, se bem me lembro, reparei mais folhas que pedras no caminho.

Levei meses para entender que a primavera estava em meus olhos.

(Marcelo Penteado)

Humilde Opinião


2011, Amsterdam

Para quem não hesita em buscar, encontra-se cada vez mais acessível histórias de pessoas que passaram a escolher viajar por uma questão maior que o próprio destino da viagem.

Não é difícil achar, muito menos entender, casos de quem largou tudo para simplesmente sair em busca de algo maior. Reconstroem suas vidas, passam meses na estrada ou somente vão.

Aquele que nunca vai provavelmente acredita que viajar desta forma é uma ideia arriscada. Pode achar que é uma perda de tempo, ancorada por uma má decisão, do qual não há nenhum retorno tangível, além de fotos e presentes.

Nós, entretanto, vemos outro risco – deixar a rotina camuflar o dinamismo natural da vida.

Viajar é um investimento orgânico. Um processo de mudança de consciência. Por definição, envolve muito mais que o aspecto presencial. Quando se sai de onde está, saem também medos, pensamentos e limites.

Abre-se espaço, então, para o enriquecimento cultural. Um arsenal de experiências que servem de subsídio para novas formas de pensar e agir. Princípio de mudanças tanto na esfera pessoal quanto nos campos profissionais.

Geralmente, quem passa a viver desta maneira, costuma concordar que o fato, quando acontece na rua, tem mais verdade que no noticiário. A imperfeição da visão dos olhos, às vezes, tem mais valor que a lente de uma câmera. Ou que, nem de longe, o silêncio das paisagens está retratado nos quadros.

É um câmbio de valores. Uma nova possibilidade de enxergar o que está ao redor. Seja por novos filtros ou além das camadas.

Todavia, há quem siga com medo de encarar mudanças. Sem sequer desconfiar que o medo de perder o que se tem é o que priva de ter mais. A falsa segurança da estabilidade cria uma realidade frágil e camuflada. Tudo que está no contorno, está prestes a transformar.

Nada se isola da mudança.

Há um grande risco ao apostar em raízes, num mundo que os ventos têm forças suficientes para mudar direções.

 (Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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