Arte


2015, Rio de Janeiro

2015, Rio de Janeiro

           

Um quinto a menos. Assim, devido a simetria numérica do equilíbrio que dança. O uísque ao gelo, a orquestra ao fundo. A canção plena, os sentidos vagos. O significado sensorial, perdido no ar.

O tempo segue, independente aos lapsos. Um passo amargo, uma memória mal tragada. Cá uma tosse. Vasta manifestação do desconforto – agudo, implícito, sentido, chorado.

Outro parágrafo. Outro momento. As cortinas abrem e a luz assusta. O incômodo recepciona, até a música reagir. Urgir. Pelo toque ao novo palco. O respiro, pois, entorpecente. Os músculos, a alma. À vontade em estar.

Mais baixo, logo enquadra-se o cenário. Pela regência, que, agora. A precisão do instante desconhece o atraso. Desnuda ao acaso. Lapida-se enquanto dilacera-se, inata ao pulsar mais vivo.

Decorre-se o que se vive. Enquanto vive, enquanto vida. O eclipse entre o sentimento e a sensação. A emoção desguarnecida, por natura, plena.

Vazia ao ensaio.

Um instante de esplendor – que somente a imprudente latência das palmas confunde ao abafar.

(Marcelo Penteado)

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Caminho de volta


2015, Rio de Janeiro

2015, Rio de Janeiro

Ele pensou.

Subverteu o tédio dos longos minutos em um retorno para casa. Mas quem disse que a mente acompanhava-o?

Voava longe, deixando o corpo olhando para o nada. Olhando pra cima, com o pensamento cravado no ar.

Há muito já não via isso. Ao seu redor, absolutamente todos entretinham-se por menores janelas, em seus excessos de opções.

Já a dele, era da alma. Dava para ver. Admirável!

Reflexões verdadeiras de uma conversa com si mesmo. “Tanta coisa pra te falar…” suponho, “como anda você, rapaz?”.

Foi quando seus cabelos, já brancos de tantos tempo, pareceram brilhar ainda mais.

E, assim, seguiram. Apesar de todas as distrações e alterações de ambiente.

Imagino que não se viam há muito tempo.

(Marcelo Penteado)

Retrato de uma crônica recente


2015, Uruguai

2015, Uruguai

Conta a história que a felicidade concedeu um sopro, enquanto seguia perseguida pelos famintos desejos do mundo.

Disse ela, em tom de socorro, que não há resposta órfã de sinônimos.

Apelou!

Ora, quando ao deleite da existência traduziu-se vida, em outros tons igualmente se aprendeu a pluralizar quaisquer significado.

Porém, tão logo todos os olhos se cegam à felicidade, única e sublime, pobre dos sentimentos que também com ela percorrem os mesmos campos: suas trilhas desmerecem o desuso.

Carente o mais nobre dos atalhos: a curiosidade. O desejo intenso de experimentar a vida. A chama que se move não para cativar, senão o oposto. Incita quando até a coragem receia. A curiosidade é a releitura mais astuta da adrenalina que conecta o desejo à conquista.

(Talvez seja uma visão das mais privilegiadas ou um descompasso precioso, quando entre encantar-se ou alcançar, se manifestam descomplexamente, feito poemas de Manoel de Barros.).

Mais um respiro – Se no alcance da felicidade, justo ao ato de sua captura, poucas palavras escapulissem pelo seu ar de presa, ditos sem fio feito cânticos jurariam a validade do relato: “há mais ilusões que plenitude em mim; nua, sou a soma de muito que foi esquecido para injustamente polir-me só”.

(Marcelo Penteado)

Movimento de Leveza


2015, São Paulo

2015, São Paulo

Muito do que passa pela minha cabeça se esvai sem qualquer recordação, salvo, a exceção de meu semblante.

O matutar pela vida via as ementas do pensamento em muito provoca somente a crescença do desentendimento.

Do alto de onde não estou, a percepção desses movimentos terceiros pouco complementam o que mais importa: sentir-se bem.

Desde então, desentendo. Quanto mais, melhor! Deixo passar os sentidos que fogem ao meu alcance. Respiro, pois, respirar, definitivamente, é a resposta mais apropriada a inumeráveis perguntas que nos sobram dessa vida.

Dos muitos caminhos que já passei, poucos trouxeram tanto conforto quanto acompanhar o percorrer do ar em meu corpo. Melhora até o captar da visão – percebi! – meio a alívios, em concordância com minha mente.

Aos poucos, sobrou para o resto do corpo – e bom que foi gradativo, pois todo instante nasce para merecer.

(Marcelo Penteado)

Escrito à alma


2015, Ibitipoca

2015, Ibitipoca

Perguntaram-me se fiz as pazes com as palavras.

Jamais com elas briguei, pronto afirmo. Nem com ninguém. Somente ao tempo prestei minha ressignificação.

Aliás, a natureza do desentendimento reside nua nos campos internos. Isso espirro sem provas, a não ser do sentimento teimoso em dessa forma sair.

Resgatei a fluidez ao entender que o equilíbrio se restabelece no polimento dos detalhes. Todo dia conta.

Cada esforço recompensa-se em alívio no presente. Qualquer instante é uma dose – a ser brindada, lembrada, tragada.

Todas as vezes que percebe-se o desvio, o envolvimento confortável em depreciar-se, a fertilidade da hesitação jamais pode superar o desconforto de agir.

Afinal, a mudança é um estalo que se faz à mão.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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