Entreouvidos


2012, Bratislava

Nunca: estou cansado da minha vida, preciso mudar!

Agora: quando?

Nunca: vou largar tudo, recomeçar…

Agora: quando?

Nunca: ir atrás do que realmente quero!

Agora: quando?

Nunca: a vida é agora!

Agora: e que nunca mude.

Na linguagem dos opostos, afirmações têm medo de dúvidas.

Há em toda resposta o desejo de uma pergunta.

 (Marcelo Penteado)

 

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Primeira vez


2014, Rio de Janeiro

A primeira vez que saí para viajar, sequer imaginei o passo que estava dando. Para mim, parecia um processo ditado por previsões. A mala era pensada a partir das roupas já decididas para cada dia e ocasião. Os dias eram resumidos a roteiros, com rigidez de horário e passeios programados. Sem esquecer do aval, até mesmo, da previsão do tempo.

Se alguém me falasse da magia, não chegaria nem perto de acreditar. Sensações não gostam mesmo de palavras. Sequer desconfiava que a distância era o impulso da liberdade.

Descobri os prazeres de viajar, apenas, quando refletidos em mim. Um latente enriquecimento baseado num encontro de vidas – especialmente daquelas que, se não fosse a viagem, nunca se cruzariam.

Com o tempo, ele mesmo me convenceu a trocar a mala por um mochilão. Aonde ir se tornou mais importante que saber onde ficar. O destino cedeu espaço para o trajeto. O caminho reinventou a linguagem dos significados, além da condição de existência entre dois pontos.

Passei a prestar mais atenção nas pessoas que nas estátuas. Foi quando aprendi a me envolver, de fato, com a importância de uma história. Meus critérios de avaliação passaram a considerar mais os sorrisos que as estrelas de fachada.

Assim, entre famílias e hotéis, preferi tornar-me hóspede por convite.

Viajar sozinho, definitivamente, foi a melhor maneira de descobrir que o melhor parceiro de viagem encontra-se dentro de si. Além da própria evolução, há momentos de pausa e silêncio, herdeiros da verdadeira liberdade.

Quando só, o horário e o destino deixam de pertencer ao consenso. O compromisso segue marcado com o acaso. Segundo o manual dos viajantes, a correnteza prevalece quando não há bordas nem mãos para segurar. Isso, também, me contou uma nuvem.

Uma mochila nas costas, somado a um lugar desconhecido, parece aguçar a sensibilidade. É como se houvesse mais poesia no olhar. O viajante resgata a beleza que a rotina enxuga. Como a chuva que, mediante seu aroma, embeleza o tempo livre das tardes.

Viajar é perceber a sutileza do que tem tudo para passar despercebido.

Quando não há ninguém para conversar, aliás, aprende-se a falar com o silêncio. Na prosa dos pensamentos ou na inspiração das reflexões, torna-se possível descobrir o caminho da própria paz.

Viajar é um constante movimento – por essência, bastante controverso – que se equilibra no colo da pausa. Pequenas ou grandes, a realidade se faz presente. Pelo concreto ou nos seios do abstrato, o dueto do agora. Entre todos os caminhos e as escolhas feitas, experiências e aprendizados são tão subjetivos como idas e vindas. No meio tempo de qualquer momento, com a permissão do fuso, viajar é a chance de nascer de novo.

 (Marcelo Penteado)

Humilde Opinião


2011, Amsterdam

Para quem não hesita em buscar, encontra-se cada vez mais acessível histórias de pessoas que passaram a escolher viajar por uma questão maior que o próprio destino da viagem.

Não é difícil achar, muito menos entender, casos de quem largou tudo para simplesmente sair em busca de algo maior. Reconstroem suas vidas, passam meses na estrada ou somente vão.

Aquele que nunca vai provavelmente acredita que viajar desta forma é uma ideia arriscada. Pode achar que é uma perda de tempo, ancorada por uma má decisão, do qual não há nenhum retorno tangível, além de fotos e presentes.

Nós, entretanto, vemos outro risco – deixar a rotina camuflar o dinamismo natural da vida.

Viajar é um investimento orgânico. Um processo de mudança de consciência. Por definição, envolve muito mais que o aspecto presencial. Quando se sai de onde está, saem também medos, pensamentos e limites.

Abre-se espaço, então, para o enriquecimento cultural. Um arsenal de experiências que servem de subsídio para novas formas de pensar e agir. Princípio de mudanças tanto na esfera pessoal quanto nos campos profissionais.

Geralmente, quem passa a viver desta maneira, costuma concordar que o fato, quando acontece na rua, tem mais verdade que no noticiário. A imperfeição da visão dos olhos, às vezes, tem mais valor que a lente de uma câmera. Ou que, nem de longe, o silêncio das paisagens está retratado nos quadros.

É um câmbio de valores. Uma nova possibilidade de enxergar o que está ao redor. Seja por novos filtros ou além das camadas.

Todavia, há quem siga com medo de encarar mudanças. Sem sequer desconfiar que o medo de perder o que se tem é o que priva de ter mais. A falsa segurança da estabilidade cria uma realidade frágil e camuflada. Tudo que está no contorno, está prestes a transformar.

Nada se isola da mudança.

Há um grande risco ao apostar em raízes, num mundo que os ventos têm forças suficientes para mudar direções.

 (Marcelo Penteado)

Sobre viagem


Cappadocia, 2012

 

Até então, era o mais distante que eu havia estado de casa. A sensação era poderosa. Reforçava uma espécie de necessidade de ir além. Estar longe era como me alongar: fazia sentir-me maior, relaxado e íntimo ao prazer.

Muito sedutor dominar o desconforto. Sentir-se bem em ser absolutamente estrangeiro. Talvez a segurança em ser tão desprendido exista na falsa esperança de que todas as raízes permanecem intactas, em casa.

Quando a distância age, no entanto, a própria vida muda os caminhos. Ou os caminhos mudam a vida, pouco importa. A volta, de tão longe, se transforma em uma nova ida. O tempo, o afastamento e as experiências são um convite irreversível à mudança.

Viajar remodela compreensões. Existe a distância que se mede e aquela que se sente. Existe um tempo para nada e um tempo para tudo. Existem algumas verdades que parecem até mentira.

Geralmente, consequente ao retorno, manifesta-se um sentimento inconveniente. A maior distância do mundo experimenta-se, curiosamente, dentro da própria casa. O lugar que era para ser o mais seguro, passa a se tornar desconfortável. Todo o desconsolo de ser estranho em seu próprio ninho.

Como não caber mais.

A sensação é igualmente poderosa. Contudo, oprime. Todo o aprendizado obtido começa a fazer sentido. Lembranças voltam com força. O conhecimento parece ter vida. Por ser vivo, escapa ao controle. Neste momento, fugir passa, então, a ser uma motivação a viajar.

A ideia de partir para se encontrar é tão atraente quanto romântica. Uma cláusula condicional à satisfação plena. Sempre lá, sempre longe. Estar fora para se sentir inteiro. Eis o martírio de muitos que viajam.

Até que, nem mesmo a viagem pode responder algumas perguntas. O prazer é sempre indescritível. Porém, é preciso algo mais.

Um bom viajante também vai para dentro. Ouve seu espírito. Desafia-se a entender que não é o lugar que lhe traz a sensação de liberdade. Compreende o propósito do ir e a interação do estar. Em si,  com resto.

A boa viagem, em realidade, está no encontro da alma com o destino.

 

(Marcelo Penteado)

Da escola


2013-12-09 19.44.31

Na escola, premiam-se os que têm as melhores respostas. Faz parte do critério de aprovação. Nota, conceitos. Passamos a precisar de algum tipo de consentimento para sermos aprovados. E evoluir.

Com o tempo, essa semente germina e passamos a ser frutos da dependência. Do que pensam, do que é certo, do que dá resultados. “Passar de ano”, como se o tempo precisasse de tais critérios para seguir em frente.

Assim, crescemos, nos reproduzimos e morremos. Sempre esperando por um momento ou sinal de aprovação. O ambiente é medido por comparação a colegas e ensinamentos de um superior.

A ação passa a considerar, previamente, a força da reação. Uma espécie de previsão, expectativa e resultados planejados. Neste momento, o objetivo passa a ser mais valorizado que o caminho.

Daí surge o “melhor pensar duas vezes”. Ou melhor, ao invés de se refletir o que se quer, passou-se a ser importante tentar medir o impacto daquilo que se quer. O erro passou a ser o maior vilão. Logo ele, um dos grandes professores da vida.

A verdade deixou de ser o que vem de dentro e passou a ser o consenso da maioria. Mais confortável que ser verdadeiro, é ser normal.

O conforto até ganhou uma zona. Geralmente regida por uma TV e sonhos distantes. Paradinho, esperando milagres acontecerem. Só que o único milagre da vida é o tempo. Ele é eterno, nós não.

Já, isto, não aprendemos na escola.

Não nos ensinam que crescer, em tamanho, é inerente à nossa vontade. A natureza já se responsabiliza por isso. O grande desafio é que nós mesmos precisamos ser maiores que parecemos ser. E isso tem nada a ver com o corpo.

Também não nos ensinam que a reprodução vai além da família. Temos o poder de acrescentar, ao mundo, ideias. Valores, manifestos genuínos. Temos oportunidade de reproduzir a vida através de nós mesmos, para uma nova geração.

Dividir causas, multiplicar efeitos. E vice-versa.

Muito menos nos ensinam sobre a morte. A morte que acontece todos os dias, em cada momento que renunciamos às nossas vontades e buscamos aprovação. A morte de um sorriso sincero, de uma paz de espírito.

A morte da vida que poderíamos ter, caso não fosse concedido ao externo, a diretriz de tantas decisões.

(Marcelo Penteado)

Ao que é bem-vindo

A arte que nasce em mim toma forma em si e ganha vida em ti.
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